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Riobaldo em Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa)
No século passado, lá pelo final dos exagerados, anos 80, prestei o vestibular. Desde então, nunca me esqueci do texto que servia como mote para a prova de redação. Era uma historinha, aparentemente um tanto singela, sobre um burro que estava morrendo de fome e de sede e colocaram na frente dele, um monte de feno e um balde com água. Incapaz de escolher, entre matar primeiro a fome ou a sede, o burro morreu.
Nesta época, não tinha a menor noção do que vinha a ser uma escolha com tamanha profundidade. Jovem demais achava que escolher era uma coisa bastante simples.. Medicina ou Direito, azul ou verde, Fla ou Flu (Flu), chocolate ou creme. O tempo me encarregou de fazer escolhas bem mais difíceis e complexas. E, atualmente, todas as vezes que me deparo com um problema de escolha, penso no falecido burrico.
Precisando escrever uma crônica, sobre o que afinal de contas é crônica, instantaneamente me veio à mente a recorrente imagem do quadrúpede, de orelhas enormes, defronte do feno e da água. O que escrever? Quais palavras usar? Quantos parágrafos? Quantos toques? Colocar ou não uma epígrafe? Não querendo morrer de fome, ou de sede, na verdade não querendo nem morrer, resolvi recorrer ao pai dos burros. Imaginei que partindo de uma definição precisa sobre o que é crônica seria fácil. A preguiça, no entanto, me fez cortar caminho. Recorri então ao “tio google” mesmo, e teclei: Cê, érre, ó, ene, i, cê, a
E, em menos de quinze segundos, estavam à minha inteira disposição 22.600.000 verbetes que continham a palavra crônica. Uni, duni, tê, fechei os olhos e cliquei aleatoriamente. Oba! era meu dia de sorte! O verbete que meu rato escolheu, graças à deus, não falava sobre nenhuma doença crônica ou qualquer outra coisa, desagradável, do gênero. Era um verbete da Wikipédia.
Já na primeira linha fiquei pasmo. Descobri que existem duas grafias para a palavra crônica: A européia com um acento agudo no ó e a brasileira com um simpático chapeuzinho no ô. Fiquei pasmo e revoltado. E a reforma ortográfica? E a unificação? O parágrafo seguinte ia ser todinho para falar mal e reclamar da reforma ortográfica, mas não vai dar. Preciso escolher uma definição, que sirva de mote para minha crônica e, se eu sair falando da reforma não vai sobrar espaço. Lá vem o burro de novo.
Estava redondamente enganado, minha escolha não ia ser tão fácil assim. Quanto mais eu me aprofundava no assunto, mais o leque de opções aumentava. Apesar de faltarem alguns tipos de crônica, o verbete fazia uma lista de mais ou menos uns 10 tipos e explicações e coisa e tal.
Indeciso, com preguiça e com a faca no pescoço não escolhi nem água nem feno, fiquei mesmo com a definição do Cony (um mestre no gênero): “Crônica pode ser qualquer coisa, só não pode ser chata!”
imagem do site biologias.com



Sempre detestei crianças mimadas. Agora não detesto mais! 




Estou sem tempo de escrever. 


