quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Qualquer semelhança...



Um dia na vida de Miranda L.

Eu ando sozinha no meio do vale.

Mas a tarde é minha

(Canção da tarde no campo, Cecília Meireles, 1967)

Acordou às 4:30 da madrugada e, temendo acordar alguém; perder o silêncio; ou ser solicitada para um copinho d’água; nem acendeu as luzes, subiu, e foi direto para o computador. A quarta-feira demorou, mas chegou. Precisava “arredondar” aquela crônica de qualquer jeito. Releu o texto, tentou consertar a pontuação. Releu mais uma vez, tentou mais uma vez. Distraiu-se e, o preguiçoso sol de inverno, já estava nascendo bem ali atrás do Pão-de-Açúcar.

Preparou o café, levou a filha mais velha, à escola. Na volta aproveitou para parar no supermercado. Deixou as compras no elevador e “interfonou” para Simone (sua nova ajudante) pegá-las. Atravessou a rua e fez o orçamento do material para a pintura do apartamento. Deu uma passadinha nas “Lojas Americanas” pediu ao gerente caixas vazias. Carregou as que pode até em casa. Fez os bolinhos da encomenda (vende bolinhos para negar o ócio). Hoje, não daria tempo de fazer a caminhada e teria que adiar novamente o retorno à natação. Pegou as crianças na escola. Deixou os bolinhos no cliente. Levou uma filha ao vôlei, a outra no inglês. Passou no banco, pagou as contas, pegou dinheiro. Deu instruções para o jantar. Buscou o carro, do marido, na oficina. Abraçou a pastinha com os textos e saiu mais cedo para o “curso de oficina da crônica” (como gosta de chamar).

De volta, a caçula pediu que a ajudasse a estudar História. O marido chegou do trabalho, e ela, ainda às voltas com gregos e troianos, pediu: - Será que você poderia pegar a Carlinha, na casa da Bia, para mim?

- Agora nem isto mais você faz? (respondeu o marido).

Suspirou, pegou chave e documentos do carro e saiu.

No demorado caminho, que separa o Jardim Botânico de Botafogo, àquela hora, coloca o único cedê que tem no carro e despudoradamente acompanha, aos berros, o Chico Buarque. Joga pedra na Geni, ela pode nos salvar, ela vai nos redimir... Eu enfrentava os batalhões os alemães e seus canhões... Morreu na contra-mão atrapalhando o sáaaabado... Amanhã vai ser outro dia... Já no terceiro “eu te amo” chega ao destino, pega a filha e retorna a Botafogo. Brinca com o porteiro. - Seu Antonio, por favor, tranque a portaria e jogue a chave fora. Não deixe que eu saia nem pro meu enterro!

-Terminou por hoje dona Miranda?

- Ainda não, estou quase. Falta o jantar, pensou.

Mesmo bastante cansada, reparou no capricho com que Simone tinha deixado cortados os legumes para a sopa. Aqueceu o azeite, refogou a cebola até quase dourar, acrescentou a abóbora, esperou que ela soltasse toda água, para, só depois, acrescentar o caldo de legumes. Enquanto isto, no forno os cubinhos de pão vão pegando cor.

Serve a sopa, senta-se à mesa e...

- Mãe, você sabe que eu não gosto de sopa de abóbora!

- Não é para gostar filha, é para comer sem gostar mesmo!

O marido (sabe-se lá porque) sente gosto de pimentão na sopa e ameaça não comer. Ela acha graça. Orgulha-se do inabalável bom humor “àquelas alturas do campeonato”

- Esta sopa está sem sal, reclama um terceiro.

Reconhece. Salga suas comidas como pontua seus textos: às vezes sal demais, outras vírgulas de menos!

Toma banho, passa os cremes e veste o bem humorado pijaminha vermelho de bolinhas verdes, que mesmo apertado, não consegue mudar seu estado de espírito. Está feliz. Suspira. Em outros tempos, depois de um dia como o de hoje, além de estar com um humor de cão, não teria ânimo para mais nada. Mas, ainda fez questão de escrever uma cartinha contando as novidades, da vida nova de cronista, para a sua analista que, (provavelmente, impedida pelo Dr. Freud) nunca responde. Escreveu à mão, com todo o capricho. E, finalmente, já deitada fez, orgulhosa, mais um xis na folhinha: Oitenta dias sem tomar o “maldito Tarja Preta”.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Meditando


Minha semana começou hoje terça-feira. Ontem não trabalhei, ou melhor o marido não trabalhou, eu trabalhei na filial. No sítio. Adoraria ser transferida para o sítio. Lá apesar de não ter as facilidades da vida moderna, também não tem as dificuldades. Só para citar um exemplo: em Pampa-linda, não pega nem celular! Eu tenho verdadeiro horror a falar ao telefone. Na verdade tenho horror, medo, é de atender ao telefone. Dependendo de quem está do outro lado, até gosto de falar. Principalmente quando é minha irmã que mora tão longe e que eu vejo tão pouco.
São 9:17 e o maldito já tocou duas vezes: o marceneiro disse que não vinha buscar o material para terminar, ma so ajudante de marceneiro ligou dizendo que pegaria uma parte do material.
Aqui também tem interfone, que também já tocou outras duas vezes. Mas deixa isso prá lá, que são ossos do ofício.
Só queria dizer que minha semana começou hoje, e que hoje comecei a fazer meditação. Um querido amigo me disse que meditando as palavras vão me amar. Ele escreve lindamente. Um verdadeiro talento.
Não sei quanto tempo fiquei sentada ali naquela posição, respirando e pensando na respiração. Pensei num montão de outras coisas também. Mas já é um começo; Preciso me desacelerar para conseguir organizar melhor minha vida, acho que meditar vai me ajudar.
Amanhã, se tudo correr bem e eu conseguir organizar direitinho meu dia (nem sempre depende de mim) vou postar a receita do chutney de bananas com tâmaras que fiz no natal passado. Não esqueci que o Ricardo tinha pedido a receita.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

mau-humor

Há muito tempo não tinha um mau-humor tão grande como o de hoje! Motivos não me faltam, mas também nunca me faltaram. Sou aquele tipo de pessoa que sempre acorda de mau-humor, sem motivo nenhum. Ou melhor: Eu acordo de ótimo humor, só não gosto que falem comigo. E tanto na casa dos meus pais, como agora na casa das minhas filhas as pessoas vêem aquela minha cara meiga e acham que podem começar o dia delas me entrevistando!
Mexem em vespeiro. O meu mau-humor é inevitável depois da terceira pergunta. E se não respondo com palavras o faço com faíscas que saem dos meus olhos e não deixam dúvida. É melhor parar com o questionário e me deixar quieta. Ninguém entende que eu penso, logo não respondo. Não consigo pensar e responder ao mesmo tempo. Ao acordar penso em um montão de coisas e respondendo perguntas o meu raciocícinio é interrompido para dizer, onde está o pão, mesmo sabendo que o indivíduo não vai achar!
Mas hoje eu não acordei de mau-humor. Fui ficando.
Não bastasse ver a cara do Arruda e dos 40 ladrões a toda hora na tv. Também tinha o Lula que tudo sabe e na opinião dele, e só na dele, uma imagem não fala mais do que mil palavras ( será que o dicionário dele chega a ter quinhentas palavras?)
Eu não esqueço que além do bordão" nunca antes na história etc e tal", tem o bordão: "Veja Bem".
Sei que sou rabugenta (acho esta palavra linda), mas mesmo assim me acostumei aos escândalos do governo Lula.
Tudo começou. Digo a casa caiu quando Duda Mendonça ( o responsável pela imagem do "lulinha Paz e Amor") foi pego em flagrante numa rinha de galos.
Este escândalo foi pinto, em relação ao que estaria por vir.
Não preciso enumerar aqui enscândalo por escândalo, porque mesmo quem não sabe ler tá careca de ouvir.
O meu mau-humor se deve a indústria da cpi e do impinchamento.
Todas as vezes que surge um novo escândalo sinto um arrepio.
Imagino aqueles enormes volumes de processos, com cópias. Uma quantidade de papel que qualquer dia desses vai acabar com a Floresta Amazônica antes do fim do mandato. Isso sem contabilizar os copinhos descartáveis, para o cafezinhos etc e tal e infinito e além. Toalhas (para secar as mãos) Papel higiênico para quem, bom deixa pra lá. E mais papel para fazer as falsas concorrências de compras disso tudo.
Disse que estou de mau-humor e vou parar por qui, meu teclado não tem culpa de nada.
A candidata Dilma tem sorte, porque as urnas são eletrônicas e não precisam daquele papelzinho para cometer o voto.
Porque me lembrei da Ministra? Acho que foi por causa do mau-humor.
Hoje não vai ter imagem.

"matou a família e saiu para tomar um chopinho"!


4hs e 57 min. Antes de desligar o celular e prestar a maior atenção à penúltima aula do Mestre Felipe Pena (este ano!), mandei um torpedo para o marido que dizia mais ou menos assim:
- Estarei incomunicável nas próximas duas horas e depois irei tomar um chopinho com meus coleguinhas de turma. Srta 14 vai ao curso de inglês e volta às sete. Passo o comando para você, que deve saber se as meninas chegaram bem.
O marido (que trabalha fora) respondeu ironicamente:
- Claro, tomarei conta de tudo, mas antes me diga qual das duas planilhas eu devo abortar primeiro.
Apesar de ter sempre uma resposta na ponta da língua, me contive, e não disse que o que são duas planilhas na conta de quem abandonou o futuro e o passado para cuidar da família.
Não gosto de ser indelicada. E com bom humor respondi: Finge que por algumas horas quem está no Chile sou eu, e assuma o comando. A aula vai começar. Câmbio e desligo.
A aula foi ótima como sempre, a turma caprichou e foi muito bonito ver o quanto cada um se orgulhava de assinar com nome verdadeiro sua crônica.
Saímos para comemorar bem pertinho do curso, num pé sujo, com ótimo chopp. Estavamos animados como colegiais, e como colegiais fizemos mil promessas de encontros e reencontros.
Voltei feliz para casa. Encontrei srta 14 linda, de vermelho e branco, estirada nos almofadões do meu quarto, lendo. O marido dormia. E srta 12 disse que eu a deixei ir dormir na casa de uma amiga.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Penúltima crônica da Oficina de Quinta!


O dever de casa desta vez era revelar o porque da escolha do pseudônimo.


Somos feitos do mesmo que nossos sonhos

“We are such stuff as dreams are made on”

(A Tempestade Shakespeare)

Em casa éramos quatro filhos. Ou melhor, somos: duas meninas e dois meninos, com idades muito próximas. Uma verdadeira escadinha como se diz. Brincamos juntos a maior parte do tempo. Mas nem eu, nem minha irmã gostávamos de futebol. Os meninos faziam questão de contar cada lance dos jogos que assistiam ou das peladas que participavam. Parecia até implicância. Nós duas detestávamos!

-Rodrigo, você achou que eu estava impedido no lance do gol?

-De onde estava não deu para ter certeza, acho que não, mas o juiz tinha outro ângulo de visão.

-E aquele carrinho que o Nelsinho deu no Bira, foi até covardia você não achou? O moleque teve que ser substituído.

-Bonito mesmo foi o gol de placa do Pepe, ele é mesmo um craque!

Cansadas de ouvir resenha esportiva sem nem precisar ligar o rádio, eu e minha irmã resolvemos pregar uma peça nos meninos. Assistimos a um amistoso (acho que era Brasil e Bolívia) e anotamos cada lance do jogo. Os noventa minutos ficaram bem explicados, com comentários e observações dignas de um bom entendedor. Quando os meninos chegaram, eu e minha irmã comentamos o jogo do mesmo jeitinho que eles insistiam em fazer há tempos. Assim “as meninas” lá de casa passaram a entender um pouco mais de futebol E, compreender é também gostar. Não era muito difícil gostar de futebol naquela época. O Brasil era tricampeão, e, apesar da Seleção não contar mais com Pelé, e com outros nomes de ouro da campanha do tri, o time era de craques.

Gosto de palavras, gosto de nomes. Quando acho o nome de alguém sonoro, já simpatizo com a pessoa logo de cara! Os nomes do time da seleção brasileira na copa de 74 eram muito interessantes: Piazza, Rivelino, Marinho Chagas, Carpeggiani. Mas tinha um nome que eu adorava repetir, achava de uma ternura... Mirandinha. Apelido de Sebastião Miranda da Silva Filho. Conhecido por fazer muitos gols e perder outros tantos.

Não escolhi meu pseudônimo por causa do Mirandinha, lembrei-me dele agora que quero revelar o motivo do meu pseudônimo de cronista.

Enquanto escrevia lembrei de outro Miranda. Uma lembrança não! Uma vaga ideia.

Quando adolescente li um romance chamado “O cortiço” de Aluísio de Azevedo. Li todinho, mas não lembrava de nada, apenas que tinha alguém que se chamava Miranda. Procurei um resumo do livro para me certificar e lá estava o Miranda, um vizinho. Gosto de vizinhos. Quando ouço a palavra, imagino uma xícara de açúcar, um pedaço de bolo quentinho, um cheirinho de café passado na hora Será que foi por gostar de vizinhos que não me esqueci do Miranda?

Não consigo entender porque conseguimos recordar algumas coisas e outras não, coisas vividas na mesma hora e no mesmo local. De um romance inteiro, só lembrar de um nome!

Selective memory (memória seletiva) dizia um chefe americano que tive. Se bem que ele se referia a uma funcionária que só se lembrava o que a interessava. Não é assim com todos nós? Confesso que fiquei tentada a reler o livro e ver, o que minha memória será capaz de selecionar agora, passados 30 anos daquela primeira leitura.

Finalmente: escolhi Miranda por causa de uma mulher. Na verdade, quem a batizou foi um homem: Willian Shakespeare.

A primeira peça dele, que eu vi encenada, antes mesmo de Romeu e Julieta foi “A Tempestade” O ano era 1982, e o cenário não poderia ter sido mais bonito. A casa que Henrique Lage mandou construir no final do século 19 para sua amada, a cantora lírica, italiana, Gabriela Bezanzoni. E, que atualmente abriga a EAV (Escola de Artes Visuais do parque Lage). Situada aos pés do morro do Corcovado, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Em torno da piscina, no mesmo local onde a famosa Mezzo-Soprano dava as suas festas, a produção teve o bom gosto de realizar a peça. Sentávamos em banquinhos em torno da piscina. No início, em silêncio total, abria-se um toldo deixando a mostra o céu estrelado. Os atores surgiam de modo inesperado, Fernando descia do telhado agarrado a uma corda com apenas uma das mãos. Caliban, o escravo, pulava do telhado dentro da piscina. Fernando e Miranda faziam a cena de amor dentro da piscina.

Eu, que nesta época sonhava ser atriz, fiquei encantada com a peça, os atores, o cenário e com o nome Miranda.

Achei que cabia muito bem o sobrenome de industrial português, numa mulher:

Dr. Miranda está ao telefone. - A sra vai atender? Soa um tanto formal.

Já: - Miranda, ruborizada, ajeitou a saia. Soa bem mais simpático, e rima com abranda, ciranda, varanda e lavanda!

Não sonho mais ser atriz, mas ainda sonho bastante. E aprender a escrever crônicas é a realização de um de meus sonhos.

Miranda.

(amiga de: Severino Mandacaru, Roberta Bontempo, Noronha, Emanuel Vilanova,

Merrick, Lo Bianco, Aprendiz, Ícaro, os “mutantes” e aluna do Mestre Pena.)


quinta-feira, 26 de novembro de 2009

DIA MARRECO ???? LEIA DE BAIXO PARA CIMA.

Ele: Oi,
O dedo melhorou e à frieira tb. Ainda não estão 100%, mas quase não dói. Só às bolhas não melhoraram muito.
Amanhã às 7 vou subir o vulcão.
À propósito dos erros, o assunto era dia marrumeno, e não marreco.
Pucon e bem turístico. Tem umas 30 agência de turismo aventura, uns 40 restaurantes, muitos hotéis e hostais, e condomínios de luxo. E muito bonita.
Beijos e reze por mim.


EU
aposto que se fosse comigo o quarto dos cachorros é que ia sobrar para mim. E o dedo melhorou?


ELE
> Já cheguei em Pucon. V. Ia adorar o hostil ... Tem 2 cachorros e umas 20 pessoas em 6 qtos, sendo que estou sozinho em um.
> Os erros são pelo maldito corretor automático.
> beijos
>EU
> Querido, diamantes são pequenos e não pesam!
> Por acaso você além das bolhas bateu com a cabeça? Eu explico: você disse nesta missiva que está com uma freira na cabeça e que seu dedo informou! É isto mesmo?
> O meu fim de semana foi ótimo, regado a vinhos ótimos. Já a vidinha continua a mesma: quente e sem armário! O rapaz está aqui tentando melhorar e disse que até sexta entrega.
> Não se preocupe pois estou sobrevivendo! Você acha que R$ 55,00 está caro para 100 (cem) gramas de cereja? Acabo de comer um quilograma.
> Saudades de viajar com você quando eu podia comer pistaquios e você curtia comer comigo na casita suiça em bariloche. Te amo
> Querido, diprogenta não serve para tudo, veja se está melhorando, senão tente outra coisa.

ELE
> > Hoje o dia não foi tão bom. Choveu muito e ficou tão nublado que não vi o Osorno . Rodei o lago todo. Passei por lugares lindos, mas sem sol perde muito. Fui à Petrohue, mas no lago Esmeralda mal deu para saltar. Fiquei todo molhado. Dà outra vez foi muito melhor. E ainda por cima não tinha com quem comentar e ficar mostrando...
> > Rodei uns 400 km, sendo quase à metade em estrada de ripio, ou seja carvalho e terra. Com à chuva não estava muito bom.
> > V. Acha que R$5,50 está caro para 1 Kg de cereja? Acabei de comer meio kilo
> > Seu presente vai ser mesmo uma surpresa, não tenho a menor idéia do que comprar. E ainda por cima tem que ser pequeno e leve...
> > Para v. Não dizer que aqui eu não reclamo:
> > 1-estou com 2 bolhas grandes no pé. Tive que comprar esparadrapo pois o que eu trouxe, não cola
> > 2-estou com freira na orelha. Ontem nem podia tocar, mas hoje melhorou um pouco.
> > 3-meu canto dà unha informou e estou botando diprogenta direto. Ainda dói bastante
> > Não se preocupe, pois estou sobrevivendo.
> > Amanhã vou pegar um bus às 9:30 para Pucon. Só devo chegar lá às 16:00.
> > Beijos. Saudades de qdo v. Gostava de viajar comigo, para Bariloche e P.Montt

terça-feira, 24 de novembro de 2009

crônica de quinta


Publico aqui a última crônica que escrevi para a Oficina da Crônica que estou fazendo às quintas-feiras. O mestre Felipe Pena nos pediu que escolhêssemos um fato qualquer que tivesse saido no jornal na semana.

“Terção Brasileira”

OBITUÁRIO

Herbert Richers, 86, sinônimo de dublagem

A frase “versão brasileira Herbert Richers”

está no inconsciente coletivo desde

os anos 50, quando Richers criou

sua companhia de dublagem...

(o globo 21 de novembro de 2009)

Quando eu nasci, já na segunda metade do século 20, a televisão ainda não era um fenômeno de massa. O aparelho incomodava, e muito, à estética das casas de classe média. Na casa dos meus avós e em tantas outras a TV ficava na sala, dentro de um armário, que só era aberto em determinadas horas do dia.

Do mesmo modo que a família se reunia a volta de uma mesa, para fazer as refeições, também se reunia no sofá, para assistir aos telejornais, novelas, desenhos animados e seriados oferecidos por não mais que três canais.

Naquele tempo as mulheres alisavam os cabelos com o ferro de passar roupa. Já havia a minissaia, mas esta não ia para a universidade e como assunto, estava restrito as colunas especializadas em moda. Nunca ao noticiário policial. O assunto mais comentado era o “escrete” para a copa de 70. Os noventa milhões de técnicos tupiniquins eram felizes e não sabiam. Podiam escalar uns três times de craques, pelo menos.

O governo nos desafiava a amar o Brasil ou então deixá-lo. Mas quem amava, muito e profundamente nossa nação de chuteiras, era muitas vezes obrigado a deixá-la.

Nesta época a censura era declarada. Antes de qualquer programa, a tv exibia um papel cheio de carimbos e assinaturas, com o brasão da república, que determinava, quem podia assistir àquele programa. Os pais seguiam, a risca, a indicação de idade “sugerida” pelo censor. Se o filme era dublado, depois daquele papelzinho da censura, ouvia-se uma voz grave: Versão Brasileira: Herbert Richers.

Na verdade todos ouviam versão. Eu ouvia terção. Durante muito tempo, fui motivo de chacota, por causa deste erro bobo. – Como é mesmo Mirandinha? Terção brasileira? E... quaquaquaqua quá!

Passadas quatro décadas, o aparelho de televisão não incomoda mais. Pelo contrário nos dias de hoje, símbolo de status, a têvê faz parte da decoração da sala. É pendurada na parede, pelos mais festejados decoradores. Onde antes ficava uma obra de arte atualmente fica uma tv de plasma. Agora, há também quem leve a tv no bolso da mesma maneira que antes, carregava o maço de cigarros. A censura, não é mais declarada é discutida, e como! Surgiu o videoteipe, a tv digital. Mas ainda ouço a mesma frase, falada com a mesma voz, no início de muitos filmes e desenhos animados.

A empresa, criada pelo brasileiro de nome estrangeiro nascido em Araraquara,São Paulo, possui um dos maiores estúdios de dublagem da América Latina e é responsável por grande parte da dublagem dos filmes exibidos ainda hoje na televisão brasileira.

Herbert Richers morreu no último dia 21, no Rio de Janeiro, mas o show tem que continuar e toda vez que eu ouvir a frase patriótica vou me lembrar dele e da minha infância também.

Miranda


Na oficina da crônica ninguém sabem quem é quem e isso torna esta oficina muito divertida,. Eu uso o apelido de Miranda e as vezes finjo que sou homem, para disfarçar bem.


quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Obrigada


Queridos,
Maria Augusta, Ricardo, Chica, Bel e Mina,
Muito Obrigada pela lembrança. Espero poder encontrá-los pessoalmente neste ano que virá. Um beijo para cada um da Paçoca!!!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

É hoje!!!!!


Um dia lindo. Acordei as meninas e fui logo ganhando um beijinho e um abraço de aniversário. Delicioso! Depois o marido ligou, ia começar a caminhada de uma das torres do "W" de Torres del Paine (Chile). E agora liguei o micro e recebi um bilhetinho do papai e da mamãe. Que segue abaixo:

Querida Loura,
Mãe de Camila e Mariana, Mulher do aventureiro Lopes,

Eu ia desenhar uma flor para você. Mas, logo desisti. Venho desenhando flores para muita gente e isto se tornou muito banal.
Assim, resolvi dedicar a você uma flor diferente de todas as outras - que brotasse das palavras, não desbotasse ou murchasse. Comecei pela forma. A fiz, ao mesmo tempo, esguia e cheia , elegante , mimosa. Seu caule tem espinhos pequenos, mas agudos. Recende a mais misteriosa essência oriental, exótica e persistente, cheira também a chocolate.
Em dia de ventania e tempestade, seu aroma fica mais intenso para prodigalizar encanto pela natureza em convulsão. Suas cores refletem seus estados d’alma: Amarelo alegria, vermelho paixão, verde tristeza, roxo revolta e azul ilusão.Mas, estas cores compõem-se harmoniosamente. Nenhuma é dominante , alteram-se com as luzes do dia ,como as pessoas ,os passarinhos, outros animais e plantas. Como você lourinha!!!
Seu pai-Rio,18 de Novembro de 2009
Minha filha querida, Como não sei versar e sim mais ou menos conversar, vai então “Aquele abraço!” Paz, saúde e alegria!.
Sua mãe



segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Rapidinhas


O marido viajou para o Chile. A passeio. Me deixou aqui com: duas adolescentes, um hamster, um montão de mudinhas de plantas para regar e não deixar morrer de jeito nenhum com o calor que está fazendo. Eu que já não tinha tempo agora vou ter que me multiplicar. O marido acha que eu sou uma super-heroína e vou dar conta de tudo! Bem que algum de vocês podia me ajudar! Mas porque moram tão longe? Saudades de vocês e de mim também. Quarta-feira é meu aniversário e eu completo literalmente mais uma primavera (45 no total). Vou tentar fazer uma postagem bem bonitinha!

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma cigana na parede



O deprimido é um ser rejeitado, até por ele mesmo.

Ninguém gosta de estar deprimido, ou de estar ao lado de alguém deprimido.

Eu sei o que é isto, já estive dos dois lados.

Para o deprimido tudo é difícil: o muro é muito alto, a dor é muito grande, a noite é muito longa.

Depois de seis anos, em morna, depressão, consegui, com muita luta, e com a ajuda do Dr. Freud e de sua fiel assistente (minha analista), sair deste estado da alma, que a muitos parece frescura, mas não é.

Deprimida havia me perdido de mim. Não me reconhecia mais, nem fisicamente. Meus cabelos não eram mais cor de mel, minhas roupas não me cabiam mais e o sorriso no rosto, marca registrada desde a infância, não estava mais lá.

Só uma coisa não mudou: a minha admiração pelo que é belo, pela arte.

Ainda bem tristinha, tomei coragem e fui viajar sozinha.

Hospedada em uma pequena cidade do estado de Nova Jersey (EUA), sempre que podia pegava o trem bem cedinho, parava em Hoboken (NJ), subia uma escadinha e pegava o path que me deixava na 33, bem no coração de Manhattam.

Não é fácil ser feliz, não é fácil ser livre. Passava os dias subindo e descendo aquelas ruas, sem saber muito bem o que fazer com tanto tempo e tanta liberdade.

Perdida, não conseguia nem almoçar. Comprava duas barras do chocolate

"Crunch com caramelo", uma "Pepsi "e assim passava o dia todo. Quando cansava, entrava numa livraria e, no ar condicionado, cercada dos melhores amigos de um deprimido: os livros,descansava.

Depois de umas duas semanas, já conseguia planejar alguma coisa. Fui ao Moma, ao Museu de História Natural, entrei em várias galerias de arte, no Soho. Almocei em Little Italy, um nhoque inesquecível.

Tão longe das minhas coisas, da minha, nada invejável, rotina de dona de casa, aos poucos fui me reencontrando.

O acaso, às vezes, me dava um empurrãozinho. E, foi por acaso, que eu vi uma exposição de quadros do meu predileto: Amedeo Modigliani.

Naquele dia, pretendia ir ao Guggenheim, cheguei até a porta e resolvi não entrar, ia almoçar primeiro e voltaria depois se fosse o caso.

Indecisa, sem saber o que fazer e aonde almoçar, (onde comprar meu "Crunch") ainda pela Quinta avenida, andei mais dois quarteirões e vi uma fila enorme. Entrei na fila, para dar um tempo enquanto pensava.

Sorte a minha, a fila era para entrar no Jewish Museum, onde havia uma exposição das obras, dele mesmo: Modigliani.

De repente, fui invadida por uma alegria e uma felicidade que não cabem em depressão nenhuma.

Esperei a minha vez, entrei no museu e não tive mais medo de ser feliz.

Dei voltas e voltas naqueles salões repletos de lindos retratos.

Os retratos, de Modigliani, são diferentes. Seus retratados ficam lindos com o olhar do artista. Ele é generoso. Os nus, apesar de terem escandalizado na época, são puros e sensuais. Isso já seria o bastante para que ele fosse o meu predileto.

Alguns meses mais tarde, de volta ao Brasil, passando por uma ruazinha, aqui mesmo em Botafogo, bem pertinho de casa, na porta de um brexó, dei de cara com um pôster que retratava uma cigana com uma criança nos braços. Não via esta imagem desde os sete anos de idade. Um pôster igualzinho enfeitava a parede, da sala de jantar, da casa da minha infância. Reconheci o traço, cheguei mais perto e li a assinatura: MODIGLIANI.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

snifff



Quando não tenho tempo de postar fico muito infeliz. Fico com saudades dos amigos que sempre passam aqui. O fim de semanna foi ótimo, eu e as meninas nos divertimos muito! Jogamos, cozinhamos, assistimos a filmes água com acúcar (ou será sal? por causa das lágrimas!). O marido treinou para uma aventura que le está indo fazer no Chile em breve. O cachorro, comeu dormiu e ganhou muito carinho!
A happy family is heaven on earth!!!

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Vai comer ou quer que embrulhe?


Acordou cedo com uma terrível dor. O estômago embrulhado, uma vontade inadiável de ficar na cama. Tomou um café preto, vestiu-se com o vestidinho-de-ir-à-rua, de malha, cinza, básico, só para esconder as vergonhas de forma neutra. Rasteirinha chic, para compor o look e não aparentar desleixo. Na padaria serviu-se de pão, cinco, seis, sete, oito, colocou no pacote foi até o caixa, pagou e recebeu os pães numa sacola plástica. Passou na banca comprou o jornal, que veio numa sacola plástica.
- Já houve um tempo (pensou) que o Jornal, depois de lido de fio a pavio, servia como "sacola plástica" embalando folhas e flores na feira e embrulhando o lixo além de mil e uma outras utilidades.
Passa na farmácia, compra um anti-ácido que lhe é entregue numa sacola plástica.
De volta a casa, pega as duas últimas torradas e joga fora o saco. Desembrulha duas fatias de queijo(que mais parecem plástico!) e coloca em cima das respectivas torradas.
Ao arrumar a casa retira o lixo das seis, repito, seis latas de lixo que estão forradas por seis sacolas plásticas. Casa arrumada, vai se recuperar no salão de beleza.
- pé e mão?
- sim.
-um minutinho por favor.
anuncia no microfone do salão moderno:
-Cíntia, Sra Miranda a aguarda na recepção.
-Cíntia, a manicura, pega o kit descartável e indica a cadeira.
-Redonda ou quadrada?
-Quadrada.
Quando termina de lixar as unhas da mão, coloca as mãos da freguesa numa luva de plástico descartável que contem um amaciante de cutículas.
Faz o mesmo com os pés. Fazendo as contas: uma luva para cada mão e uma para cada pé!
-A sra deseja uma água, um café, um mate?
O mate vem num daqueles copos long drink e na mesma bandeja vem um canudo embrulhado num saquinho plástico, repito, um canudo, num saquinho. E um guardanapo embrulhado num saquinho, desta vez não vou repetir que vai ficar chato!
Vai ao supermercado, enche seis pares de sacolas plásticas com o cardápio para dois dias.
De volta em casa, prepara o almoço com o que comprou, abrindo umas três ou quatro embalagens (com o perdão da má palavra) plásticas.
A noite sai para jantar com o marido e, inocente janta sem pensar nas malditas embalag...
Na hora do amor vocês já sabem sexo seguro.

Se você se interessa pelo assunto clic aqui. Lá você vai encontrar ótimos videos sobre o assunto.
Peguei a foto da sandália que ilustra o texto na internet. A sandália é toda feita de sacolas plásticas.
Se você diminuir o uso das sacolinhas, prometo não falar mais no assunto!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma angolana, uma congolesa e ...

Rogério havia nos pedido que levássemos a sala de aula algum acontecimento recente que nos tivesse chamado a atenção. Logo me animei, nessa mesma aula, contei a história do peixe que caiu do céu aqui em casa faz um mês. Depois fiquei pensando o que poderia ser mais inédito do que ver um vulto seguido de um ploft, antes do sol nascer totalmente, e ao verificar o que era, encontrar um peixe estatelado no terraço do décimo primeiro andar de um prédio que fica no centro de um terreno e que não tem nada acima no raio de uns muitos quilômetros.

Era uma quinta-feira santa, feriado escolar, estava com tempo e pude ir ao salão retocar os cabelos já entregue às malditas cãs. Não fui de carro, ainda estava traumatizada pela multa que recebi na antevéspera, por estacionamento irregular, justo em Ipanema, meu destino.

Pedi logo ao motorista que fosse pela Tonelero, subisse o corte de Cantagalo e entrasse para Ipanema pela Rua Garcia D’ávila. O motorista só me interrompeu para perguntar se naquele trecho poderia ir pela Barata Ribeiro, pois a Tonelero estava parada. Consenti e me entreguei à leitura de um livro.

Fiquei umas quatro horas no salão, matei minha sede de ler e não pretendia ler no táxi de volta.

Peguei o táxi na Aníbal de Mendonça e pedi ao motorista que me levasse à rua General Severiano.

- A senhora sugere algum caminho?

- Ah! Sim, vamos pela Epitácio Pessoa, por favor.

Assim que subimos o viaduto Plácido de Castro o trânsito estava todo parado.

Pensei alto: Nossa está tudo engarrafado.

- É só um pouquinho senhora, daqui a pouco anda.

Olhei para o lado vi a subida do corte e me consolando disse.

- Não ia adiantar ir por outro caminho, veja: o corte também está todo parado.

- A senhora está com algum compromisso?

- Não senhor, mesmo porque, se tenho hora para chegar saio com bastante antecedência para ter certeza de chegar na hora marcada sem estresse.

- Eu também senhora detesto atrasos, já a juventude não sabe o que é chegar na hora marcada, é comum chegarem quinze minutos depois do combinado.

Não concordei, não gosto de falar mal da juventude e nem gosto de generalizar.

Lembrando-me da minha irmã disse:

- Conheço pessoas que saem de casa na hora em que marcaram para chegar.

Ele sorriu e disse:

Assim não dá, não chegarão nunca.

É verdade, concordei.

De primeira, e segunda, ainda passávamos em frente aos prédios conhecidos como residências Villa-Lobos.

Lembrando-me do sufoco que havia passado no dia anterior para poder honrar vários compromissos estiquei um pouquinho mais a conversa.

- Contratei uma pessoa para trabalhar em minha casa na segunda-feira e ontem ela faltou.

- Quando eu trabalhava nunca faltei ao serviço.

A senhora não trabalha? indagou curioso o pracista.

Não senhor, não trabalho. Larguei quando as crianças nasceram.

Com uma certa urgência, foi logo dizendo:

- Olha. Vou dizer uma coisa para a senhora: Eu tenho uma prima que foi casada 26 anos. Acho que o marido fez de propósito, completou entre parênteses, um dia desses ela por acaso mexeu na carteira dele e encontrou o retrato de um menino junto com o retrato das filhas e não foi difícil ela concluir que o menino era filho dele.

Ainda pela curva do calombo fiquei sabendo dos pormenores. Antes de “esquecer” o retrato do bastardinho ele fez o favor de convencer, a santinha a qual ele proibiu de trabalhar, a deixar os 150 mil que recebera de herança da mãe, para que ele tomasse conta. O resto vocês já sabem ou imaginam. É uma história como tantas outras.

Antes de chegarmos ao Botafogo, não à sede da General Severiano, na lagoa ainda no clube de remo, Eu disse que podia perceber um mau-caráter nos mínimos atos.

Ele achava que não, que podemos ser enganados, por acharmos que aquilo nunca aconteceria com a gente.

E é por isso que eu nunca casei. Vivo com uma mulher há 30 anos, mas casar de jeito nenhum.

- A senhora sabe: eu não sou daqui, sou de Portugal.

- Ah! E da onde o sr é?

Respondeu de passagem - De Coimbra,

- Eu já fui a Coimbra. Imaginava que a conversa seguiria este rumo, Coimbra, a universidade, os estudantes de preto, as iguarias...

- Quando eu morava em Coimbra, numa cidadezinha nos arredores, a mulher de um amigo meu...

Eu curiosa para saber que cidadezinha.

Ele querendo contar a decepção do amigo.

- Um amigo meu morava perto de uma igreja e o padre teve um caso com a mulher dele.

- E isso não é tudo, foi logo completando, o padre, muito esperto, espalhou pela vizinhança que precisava de alguém que limpasse a Igreja e cuidasse dos aposentos dele.

A mulher disse ao marido que ela poderia fazer este serviço, afinal de contas seria um dinheirinho extra no apertado orçamento do casal.

Não satisfeito em ficar com a mulher do amigo, os dois ainda fugiram e ninguém nunca mais ouviu falar neles.

Nesta altura chegamos à fonte da saudade.

É tem mau-caráter em tudo quanto é profissão. Padre, Padeiro, Pedreiro...

- Eu já fui padeiro, tive duas padarias e não sou mau-caráter.

- Eu não quis dizer isto, quis dizer que mau caratismo é da pessoa e não da profissão.

Mas, ele queria dizer que também teve um restaurante no jardim botânico, que tinha treze empregados que o vendeu depois que a globo foi pro projac...

Tendo passado pela Real Grandeza, já quase no cemitério São João Baptista ele me contou que morou na áfrica, que tinha servido ao exército.

- Angola?

- Sim, Angola.

- E o que o sr fazia?

(com muita simplicidade) – Matava

- Matava, simples assim?

- Se eu não matasse, eu morria. Na guerra não temos escolha estamos lá para matar.

Fui ficando aflita, já estava na bifurcação entre a General Polidoro e a Arnaldo Quintela.

O sinal fechou.

Ele arregaçou as mangas e mostrou uns dez ou doze pontinhos tatuados no braço esquerdo.

- O sr matou todos esses?

- Matei.

Se não matasse, morria repetiu.

- Uma vez o capitão queria que eu matasse três enfermeiras que havíamos capturado. Uma angolana, uma congolesa e a outra não me lembro.

- Achei que era covardia, que elas não representavam ameaça e disse que não mataria. O capitão insistiu, disse que era uma ordem.

- Eu tinha que cumprir ordens, mas ainda tentei argumentar, se o sr acha que elas devem morrer, mate o sr mesmo.

- O capitão lembrou-me que quem mandava era ele. E eu disse: - Esta bem vamos deixá-las tomar banho e depois disso matamos. Fiz isso para elas poderem fugir.

Não deu outra, elas fugiram e foram engolidas pelos crocodilos.

Ah! Não assim esta história está ficando um tanto fantástica.

A senhora não sabe que na África tem crocodilos enormes. A senhora não acredita.

Lembrando-me das cobras que engolem um boi inteirinho, apressei-me em dizer que acreditava sim.

- O sr pegue a esquerda, por favor, pois já estamos quase chegando.

Colocou a seta, pegou a esquerda e eu pedi que parasse logo ali depois daquele poste.

Ele parou um pouco mais a frente num recuo.

- O senhor tem é coisa para contar!

- É sim, até uma escritora disse que queria escrever um livro, mas eu não contei tudo para ela.

Já estacionado, olhou para trás e disse:

- Mas para a senhora eu vou contar.

Ficamos sabendo da covardia que um grupo de cinco homens havia feito com uma família. Estupraram, mataram, e pegaram até uma mulher grávida de oito meses, abriram a barriga dela ao meio, retiraram o bebê e cortaram ao meio.

Nós fomos no rastro deles e um.... espécie de capitão do mato encontrou-os.

Eles estavam assando um veado.

A senhora sabe como nós matamos???

- Já descrente deste mundo, eu respondi: colocaram para assar como o veado.

- Não senhora, pegamos um bambu grande que havia por lá afiamos bem, fincamos os cinco e deixamos lá para os urubus comerem.

Peguei o dinheiro, paguei a corrida, eu precisava ir...

Ele ainda mostrou-me uma das seqüelas da guerrilha.

Esticou o braço direito, disse que era uma pessoa calma.

Eu disse, suas mãos tremem...

Ele disse de tanta granada.

Não querendo ir disse, eu tenho fotos poderia mostrá-las para provar...

Eu com uma vontade danada de combinar para ver as fotos, disse apenas tchau uma Boa Páscoa.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ter um blog é legal!

Ando com uma tosse danada. Ou melhor, tento dormir e uma tosse me ataca. Então ao invés de lutar, venho até pampa-linda ver o que os amigos estão fazendo. Aqui é a minha Pasárgada e eu não sou amiga do Rei, sou o próprio.
Visito um amigo que foi a Londres e viu Chicago pela primeira vez. Por sua vez meu amigo visitou um amigo.
No twitter conheço Fabrício Carpinejar, leio ótimas frases. Curiosa invado o blog dele e a minha tosse é bem vinda e se justifica.
Vou ilustrar de novo com Leminski.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Palavras insólitas

Esta é mais uma tarefa da gincana da qual eu participo. Link ai ao lado.
1ª TAREFA - Vá até o blog "inscrito", imediatamente, antes do seu e:

a) Leia as três últimas postagens.

b) Escolha uma delas para responder às perguntas:

1) Por que escolheu essa?

2) O tema é de seu agrado. Por que?

3) Já frequentava esse blog? Caso negativo, qual foi sua impressão?

4) Escolha uma imagem, destas postagens, para ilustrar sua resposta/tarefa.

5) Faça uma descrição do blog visitado. Comente todos os aspectos que te chamaram ( negativa ou positivamente) a atenção.

6) Coloque como título, de sua postagem/tarefa, o nome do blog visitado.

Marina Sena é a dona do Blog palavras insólitas.
No seu perfil ela diz que tem só 17 aninhos. Marina escreve pequenos contos muito interessantes e criativos. Não coloca muitas fotos. Usa diferentes fontes como se quisesse mostrar seu humor graficamente. Eu gostei mesmo dos contos de Marina e coloco aqui o que escolhi para cumprir a tarefa.

.o.homem.de.retalhos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009 às 07:58
*Créditos da imagem

Era todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, outros com um rascunho de qualquer coisa que tenha passado. Retalhos feitos de papel, todos espalhados pelo chão. Diziam que era tudo muito desarrumado- suas paredes, seu quarto, sua sala - mas a verdade era que, e isso era um segredo, ele gostava assim. As folhas se perdiam e misturavam umas às outras, sem que ele nunca pudesse arrumá-las completamente, pô-las em ordem.
Um dia, ele desejou, muito e muito, que pudesse ser como os homens organizados. Sempre muito bonitos, de cabelo penteado, com um gravata talvez; mas principalmente com aquela organização que não deixa papéis espalhados por todo lugar. É que às vezes se perdia entre seus retalhos. Não que isso fosse exatamente ruim, mas apenas ele poderia viver em lugares assim. Ninguém mais poderia lhe entender a organização. Vivia sozinho, em meio aos seus papéis. Até que, certa vez, encontrou uma menina. Ela tinha uns olhos escuros muito bonitos, gostava comer marshmallows e tinha cheiro de margaridas no verão. Gostava de sair para andar em dias de sol e também de levá-lo com ela. Ele parou de viver só em meio aos seus papéis amassados. Passou a ter uns retalhos coloridos, que nunca tivera antes. As pessoas passavam do outro lado da rua e diziam como formavam um belo casal, desses que vivem a andar pelas flores.

Ela pintou as paredes, forrou o chão com tapetes e sorrisos, trocou as cortinas. Trouxe uns livros para pôr na estante e umas caixas para guardar os papéis.Você não pode viver para sempre assim, ela dizia, todo afogado em retalhos, sem nunca poder respirar. Mas ele, todo acostumado com seus rascunhos, não queria deixá-los ir tão distante. Ela chorou quando ele a fez parar de pintar as paredes. Quando deu-lhe de volta os livros da estante e jogou fora as caixas para guardar os papéis. Ele se desfez dos papéis coloridos, dos sorrisos espalhados pelo corredor e das caminhadas em dias de sol. As pessoas passavam do outro lado da rua e diziam como ele era todo feito de rascunhos amassados. Ela não quis mais - nunca mais - comer marshmallows. Seus olhos escuros não eram, agora, tão brilhantes, e não tinha mais o cheiro de margaridas no verão. Isso ele nunca poderia notar, pois tanto se perdeu no seu mundo de rascunhos amassados, histórias em branco e linhas despedaçadas que nunca conseguiria viver com ela, entre as flores.

Era todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, mas todos dele e - sim, agora ele sabia - nunca feitos para dias de verão.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Rainha do Engenho





O diabo, de tanto tentar se enfeitar,
acabou ficando com a cara torta.

- Pode deixar que eu compro as flores!
Beijou o neto que dormia em sua cama e saiu para o trabalho.
Eram 5:50. Graças a estação Engenho da Rainha, podia se dar ao luxo de sair de casa às seis e caminhar com calma até o metrô.
Estava especialmente cansada naquele segundo sábado de maio, desanimada até. As varizes doíam, mas o senso de responsabilidade não desanimava. Nunca.
Moradora antiga do Engenho Da Rainha, Ceci era muito conhecida e respeitada no bairro. A mãe, morena bonita, descendente dos Tamoios, tinha sido amante de um músico, morador de famoso conjunto habitacional da região. O Pai: desconhecido.
Geralmente, saltava na estação Cantagalo, mas hoje resolveu pegar o ônibus que faz a integração até Ipanema. Assim, não caminharia tanto.
Às 7:30 vestia uniforme de doméstica, passado e engomado, com capricho, por ela mesma.
Começou pela sobremesa: pavê de nozes. Depois, enquanto o lagarto cozinhava, descascou as batatas, lavou as folhas, fez o arroz. Colocou a louça que ia ser usada na lavadoura, separou os talheres. Fez um chazinho para dona Tereza (a patroa) que estava indisposta.
Ao meio-dia estava pronta para voltar para casa e começar o tradicional almoço de dia das mães. O cardápio era quase igual. O pavê não teria nozes, e ao invés de folhas preferia um guizado.
Antes de sair, a patroa ainda pediu que acendesse uma vela na Igreja de Nossa Senhora da Paz. Era uma promessa que Dona Tereza não queria quebrar, mas indisposta como estava, teve que recorrer à amiga.
Ceci não gostava de passar nesta Igreja. Foi lá que morreu o mais ilustre vizinho, morador do Conjunto Habitacional dos Músicos: Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha. Mas, não seria de todo ruim, aproveitaria para rezar pelo seu filho caçula, Nelsinho, menino fraco, que não conseguia largar o vício.
Pegou o metrô de volta.
Adorava o nome do seu bairro. Sabia um pouquinho da história também. Engenho era a fazenda de cana-de-açúcar onde Dona Carlota Joaquina, a rainha, ia descansar. Pensava divertida.
Passou numa feirinha, comprou um par de chinelos para dona Bira, solteirona, velha amiga da família, e que com certeza, coitadinha, não ganharia nada no dia das mães!
No sacolão, comprou os legumes para o guizado, encontrou Dirce, sua manicura, e confirmou a hora.
Sábado por volta das cinco era a hora do descanso de Ceci. Dirce ia para lá e entre esmaltes, lixas e alicates as duas bebiam uma Malzebier bem geladinha, falavam da vida, delas e da dos outros, é claro.
Não teve coragem de recusar o pedido da amiga. Dirce queria fazer bonito, causar inveja às cunhadas, e levar uns rissoles para a festa do dia das mães na casa da sogra.
Terminou de fritar os rissoles lá pelas 10 e despediu-se de Dirce.
Tomou banho, trocou a fralda do netinho e já deitada ouviu as reclamações do marido.
Há muito que ele não dava nem bom dia, nem boa noite. Falava de suas dores da hora que acordava, até a hora de dormir. Não se calava nem dormindo, roncava até quase sufocar a noite toda.
Só faltavam as flores, pensou.
Acordou na hora de sempre, pensou em não comprar as flores, estava cansada demais e afinal as flores eram para ela mesma.
O telefone tocou. Cíntia, a filha mais velha, deixaria as crianças lá. O marido tinha saído para beber, ainda não voltara e ela iría atrás daquele cachorro.
Nelsinho ainda não tinha chegado. O marido acordou e agora tinha mais motivos para reclamar: As crianças de Cíntia corriam aos berros pela casa enquanto a babá (a televisão) se esgoelava em vão.
Serviu o café para o marido, que desta vez reclamou estar fraco.
Pegou o dinheiro das flores.
Quando saía, entraram Cíntia com o marido cachorro e Nelsinho, bêbado como um gambá. Dona Bira, a solteirona, não viria, estava constipada.
Fechou o portão.
Foi encontrada dias depois, sentada numa pracinha, embaixo de um pé de abiu, agarrada a um vaso de orquídeas. A tudo o que lhe perguntavam, respondia com o olhar perdido:
-Sim!

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ei você aí, me dá um dinheiro aí ,me dá um dinheiro aí.


Aqui pertinho de casa, tem um mendigo que nunca pediu dinheiro. Mendigo ou morador de rua? Existe uma definição? Não sei de nada, como já disse, mas desconfio muito. O mendigo, digo o morador de rua, mora aqui na rua desde que eu vim morar aqui, há 15 anos. Ou ele já morava antes? Eu o chamo, de Tatuagem.

Alto, magro, sempre de bermudas, nunca o vi usando camisa. Anda quase sempre descalço. Uma vez ou outra usa uma daquelas democráticas sandálias que não deveriam soltar as tiras. Tatuagem está sempre com um sorriso no rosto que, não pude deixar de notar, ao longo destes anos mudou muito. Quase não há mais dentes em seu sorriso.

Tatuagem me ajuda. Sempre que eu tive que atravessar minhas filhas, quando pequeninas, ele verificava se os carros tinham parado mesmo no sinal. Se eu preciso passar num lugar aqui pertinho, e que eu sei que é perigoso, pergunto. - Tatuagem posso ir? - tá liberado, pode ir. Responde, e nos segue com o olhar para ver se nem um pivete vai bulir comigo ou com as meninas.

Tatuagem nunca me pediu nada. Nosso relacionamento é de vizinhos: - Oi tudo bem?
- tchau. - Nossa que chuva a de ontem, hein? Vejo que ele gosta de conversar. Está sempre trocando um dedo de prosa com o guardador de carros e com o segurança aqui da rua. Tatuagem não assiste televisão. Sorte a dele. Assim não precisa assistir a total mendicância que virou a televisão brasileira.

Já pela manhã bem cedinho, acrditando talvez que deus ajuda a quem cedo madruga começam os pastores a pedir. Ultimamente ando obcecada por um pastor americano que pede nada menos que NOVECENTOS reais. O pastor é um velhinho de cabelos escandalosamente pintados de preto, com um rosto de biscoito "Trakinas". Será que alguém deposita os, repito, NOVECENTOS reais na conta do pastor traquinas?
Seguindo os pastores, seus pedidos e seus sermões, começam os jornais locais com pedidos de dinheiro e tudo o mais para as tragédias locais.
Os programas femininos tem um jeitinho todo especial de pedir o tutu, entre uma receita e outra, lá vai o número da conta.
A tarde a programação infantil pede descaradamente para que a criança enlouqueça seus pais pedindo para que les comprem " de um tudo" sem limites.
A noite os jornais "nacionais" pedem dinheiro para tragédias mundiais. Tsunamis, tufões e furacões.
Nos fins de semana, que a tv brasileira descansa e nos brinda com uma programação lamentável, vêm os shows, para pedidos de dinheiro. Pestalozzi, criança esperança, teleton etc e tal e infinito e além.
Isto sem contar com os pedidos do governo, que para poder manter a pobreza (seu eleitorado) aumenta os impostos, cria novos impostos e não repasssa nada.

Não reli, não corrigi, aceito sugestões.

sábado, 10 de outubro de 2009

Gentilezas e delicadezas


Gosto muito dos meus poucos leitores. Less is really more. São sempre delicados nos comentários, mesmo que não tenham tempo, não entendam ou não concordem. Meus leitores, são antes de tudo pessoas educadas e sensíveis. Porque estou dizendo isto?
Porque andei refletindo, a partir de duas, aparentemente pequenas, coisas que me aconteceram esta semana.

Precisei fazer um jejum de 12 horas para um exame de perfil lipídico. Já prevendo o resultado e todas as proibições que se sucederiam, assim que os médicos vissem o que minha barriga já deixa transparecer há tempos, fui me despedir da vida boa. De agora em diante vou ter que levar a vida saudável.

Tem gente que não gosta de despedidas, eu gosto. Mas tem que ser em grande estilo. E por isso resolvi terminar meu jejum com um nada mais, nada menos que um croissant. Era uma quinta-feira de manhãzinha, eu não tinha pressa para nada e fui ao café que eu gosto aqui mesmo em botafogo.

Quando entrei no café, saía uma conhecida minha. No local que é bem pequeno, não havia freguês. Qual carioca come croissant no café da manhã? Os que comem, o fazem escondido, se bem que a barriga acaba delatando os inocentes.

A atendente do café juntava umas mesas para o que parecia ser uma comemoração; a minha conhecida retornou com umas amigas e de costas para mim disse à atendente que separasse as mesas que ela não se sentaria ali. Foi sentar-se com mais três amigas do outro lado, deixando patente que não queria que eu estivesse por perto. Eu tomei meu suco de laranjas, comi meu croissant com queijo minas, querendo desaparecer. Achei uma indelicadeza, e até mesmo um pouco assintosa a atitude da conhecida. Tenho certeza que se ela fosse um pouquinho mais bem educada, não deixaria que eu me sentisse tão mal por estar ali.

No dia anterior tinha sido o aniversário de uma sobrinha do marido. Ele tinha me pedido que o esperasse chegar do trabalho para darmos os parabéns. O marido chegou tarde e eu já estava com tanto sono que esqueci de ligar. Nesta mesma quinta-feira, não querendo que o aniversário da sobrinha passasse em branco e sabendo da preocupação do tio em demonstrar afeto a sobrinha, mesmo que anualmente, resolvi ligar. Disse as coisas de praxe,com é de praxe, dizer bom dia, ou boa noite, ou obrigada.

Disse a menina ( que devia estar completando umas quarenta primaveras) que o tio estava no trabalho e que eu não sei se chegaria a tempo de falar com ela. Ao que ela respondeu: - Não precisa, já está falado.

Tenho certeza que nos dois casos as pessoas não tiveram intenção nenhuma de serem indelicadas, mas o dr. Freud não está tão certo assim.Também tenho certeza que se elas tivessem um pouquinho mais de educação teriam sido bem mais gentis.

Sábado de muita chuva, na cidade sede dos jogos olímpicos de 2016. Isto se sobrevivermos até lá. Aqui no Rio não é preciso nenhum tsunami para que a água provoque verdadeiras tragédias na vida do carioca.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rapidinhas




Ando meio sem tempo, então para não abandonar totalmente meu blog, vou publicar aqui as crônicas que escrevo para a oficina nova que eu estou fazendo.
Fazem amis ou menos 30 dias que eu mandei a empregada embora. Achei que minha vida ia virar um caos, com duas meninas adolescentes e indolentes e um marido, que estando em casa, me chama 25 hours a day. Mas estava enganada. Tenho conseguido dar conta do recado. E sou muito feliz por não ter que mandar ninguém fazer nada, e nem responder a recorrente e irritante perguntinha: Dona Márcia o que a sra vai querer que faça para o almoço. Sinceramente, prefiro fazer eu mesma o almoço do que dizer o que tem que ser feito. Se os países mais desenvolvido do planeta passam muito bem sem empregada doméstica acho muita arrogância de nós brasileiros não podermos nem arrumar a própria cama na qual nso deitamos. Depois escrevo mais sobre isso. segue minha crônica, o professor tinha andado escrever uma crônica com o tìtulo O que é crônica.
Depois conto como é o professor e como são os alunos deste novo curso.

Uma crônica?


“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

Riobaldo em Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa)

No século passado, lá pelo final dos exagerados, anos 80, prestei o vestibular. Desde então, nunca me esqueci do texto que servia como mote para a prova de redação. Era uma historinha, aparentemente um tanto singela, sobre um burro que estava morrendo de fome e de sede e colocaram na frente dele, um monte de feno e um balde com água. Incapaz de escolher, entre matar primeiro a fome ou a sede, o burro morreu.


Nesta época, não tinha a menor noção do que vinha a ser uma escolha com tamanha profundidade. Jovem demais achava que escolher era uma coisa bastante simples.. Medicina ou Direito, azul ou verde, Fla ou Flu (Flu), chocolate ou creme. O tempo me encarregou de fazer escolhas bem mais difíceis e complexas. E, atualmente, todas as vezes que me deparo com um problema de escolha, penso no falecido burrico.


Precisando escrever uma crônica, sobre o que afinal de contas é crônica, instantaneamente me veio à mente a recorrente imagem do quadrúpede, de orelhas enormes, defronte do feno e da água. O que escrever? Quais palavras usar? Quantos parágrafos? Quantos toques? Colocar ou não uma epígrafe? Não querendo morrer de fome, ou de sede, na verdade não querendo nem morrer, resolvi recorrer ao pai dos burros. Imaginei que partindo de uma definição precisa sobre o que é crônica seria fácil. A preguiça, no entanto, me fez cortar caminho. Recorri então ao “tio google” mesmo, e teclei: Cê, érre, ó, ene, i, cê, a


E, em menos de quinze segundos, estavam à minha inteira disposição 22.600.000 verbetes que continham a palavra crônica. Uni, duni, tê, fechei os olhos e cliquei aleatoriamente. Oba! era meu dia de sorte! O verbete que meu rato escolheu, graças à deus, não falava sobre nenhuma doença crônica ou qualquer outra coisa, desagradável, do gênero. Era um verbete da Wikipédia.


Já na primeira linha fiquei pasmo. Descobri que existem duas grafias para a palavra crônica: A européia com um acento agudo no ó e a brasileira com um simpático chapeuzinho no ô. Fiquei pasmo e revoltado. E a reforma ortográfica? E a unificação? O parágrafo seguinte ia ser todinho para falar mal e reclamar da reforma ortográfica, mas não vai dar. Preciso escolher uma definição, que sirva de mote para minha crônica e, se eu sair falando da reforma não vai sobrar espaço. Lá vem o burro de novo.


Estava redondamente enganado, minha escolha não ia ser tão fácil assim. Quanto mais eu me aprofundava no assunto, mais o leque de opções aumentava. Apesar de faltarem alguns tipos de crônica, o verbete fazia uma lista de mais ou menos uns 10 tipos e explicações e coisa e tal.

Indeciso, com preguiça e com a faca no pescoço não escolhi nem água nem feno, fiquei mesmo com a definição do Cony (um mestre no gênero): “Crônica pode ser qualquer coisa, só não pode ser chata!”



domingo, 4 de outubro de 2009

cronica

Comecei na quinta -feira, nova oficina da crônica (isto já esta se tornando crônico-não resiti ao infame trocadilho-mil perdões)

Hoje é domingo, pé de cachimbo etc e tal, não esta sol.

Detesto gente com car blasé, mas aceito explicações.

Outro dia fui fazer uma ultrassonografia do abdomem, pois sentia dores na barriga.
Quando adentrei aquela salinha, escurinha e geladinha, me lembrei de quão esquisitos são os profissionais que fazem este tipo de exame. Todos sem exceção tem um ar blasé.

A médica que me atendeu tinha o cabelo chapinha, masgava chicletes e tinha o indefectível ar blasé.
Repira fundo,solta,respira,solta,respira,solta cut and paste ,etc e tal. Não fazia nenhuma expressão além do ar blasé. Não olhou hora nenhuma a minha cara, não sorriu.

Doutora Pilar era o nome da esquisita.

No final do exame que a máquina fez, cai na besteira de perguntar se estava tudo bem. Ao que o clone de ser humano, ruminante respondeu: - Tem gordura no fígado.
E o que isto quer dizer? perguntei humildimente, ainda insistindo em ser simpática.
- Quer dizer o que foi dito: gordura no fígado.
Apesar de estar na posição desfaforável, deitada e com a barriga toda melecada, ousei perguntar mais uma vez.
-E isso é grave?
-Depende de uma série de coisas.
-Passou um papel na minha barriga e saiu ruminando.