segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Uma cigana na parede



O deprimido é um ser rejeitado, até por ele mesmo.

Ninguém gosta de estar deprimido, ou de estar ao lado de alguém deprimido.

Eu sei o que é isto, já estive dos dois lados.

Para o deprimido tudo é difícil: o muro é muito alto, a dor é muito grande, a noite é muito longa.

Depois de seis anos, em morna, depressão, consegui, com muita luta, e com a ajuda do Dr. Freud e de sua fiel assistente (minha analista), sair deste estado da alma, que a muitos parece frescura, mas não é.

Deprimida havia me perdido de mim. Não me reconhecia mais, nem fisicamente. Meus cabelos não eram mais cor de mel, minhas roupas não me cabiam mais e o sorriso no rosto, marca registrada desde a infância, não estava mais lá.

Só uma coisa não mudou: a minha admiração pelo que é belo, pela arte.

Ainda bem tristinha, tomei coragem e fui viajar sozinha.

Hospedada em uma pequena cidade do estado de Nova Jersey (EUA), sempre que podia pegava o trem bem cedinho, parava em Hoboken (NJ), subia uma escadinha e pegava o path que me deixava na 33, bem no coração de Manhattam.

Não é fácil ser feliz, não é fácil ser livre. Passava os dias subindo e descendo aquelas ruas, sem saber muito bem o que fazer com tanto tempo e tanta liberdade.

Perdida, não conseguia nem almoçar. Comprava duas barras do chocolate

"Crunch com caramelo", uma "Pepsi "e assim passava o dia todo. Quando cansava, entrava numa livraria e, no ar condicionado, cercada dos melhores amigos de um deprimido: os livros,descansava.

Depois de umas duas semanas, já conseguia planejar alguma coisa. Fui ao Moma, ao Museu de História Natural, entrei em várias galerias de arte, no Soho. Almocei em Little Italy, um nhoque inesquecível.

Tão longe das minhas coisas, da minha, nada invejável, rotina de dona de casa, aos poucos fui me reencontrando.

O acaso, às vezes, me dava um empurrãozinho. E, foi por acaso, que eu vi uma exposição de quadros do meu predileto: Amedeo Modigliani.

Naquele dia, pretendia ir ao Guggenheim, cheguei até a porta e resolvi não entrar, ia almoçar primeiro e voltaria depois se fosse o caso.

Indecisa, sem saber o que fazer e aonde almoçar, (onde comprar meu "Crunch") ainda pela Quinta avenida, andei mais dois quarteirões e vi uma fila enorme. Entrei na fila, para dar um tempo enquanto pensava.

Sorte a minha, a fila era para entrar no Jewish Museum, onde havia uma exposição das obras, dele mesmo: Modigliani.

De repente, fui invadida por uma alegria e uma felicidade que não cabem em depressão nenhuma.

Esperei a minha vez, entrei no museu e não tive mais medo de ser feliz.

Dei voltas e voltas naqueles salões repletos de lindos retratos.

Os retratos, de Modigliani, são diferentes. Seus retratados ficam lindos com o olhar do artista. Ele é generoso. Os nus, apesar de terem escandalizado na época, são puros e sensuais. Isso já seria o bastante para que ele fosse o meu predileto.

Alguns meses mais tarde, de volta ao Brasil, passando por uma ruazinha, aqui mesmo em Botafogo, bem pertinho de casa, na porta de um brexó, dei de cara com um pôster que retratava uma cigana com uma criança nos braços. Não via esta imagem desde os sete anos de idade. Um pôster igualzinho enfeitava a parede, da sala de jantar, da casa da minha infância. Reconheci o traço, cheguei mais perto e li a assinatura: MODIGLIANI.

4 comentários:

Maria Augusta disse...

Paçoca, ainda bem que você reconheceu o problema e reagiu, com ajuda de sua analista. E uma quebra da rotina assim, radical, passar um tempo em liberdade total, "sem lenço, sem documento", sóablea observando as coisas belas é um tratamento maravilhoso. E tua admiração pela arte e por Modigliani talvez esteja relacionada com este pôster de tua infância, né? Ops, olha eu dando uma de analista rs.
Beijos e uma boa semana para você.

Tertúlias... disse...

É sempre tao reconfortante saber de pessoas que "passaram por cima" de seus problemas e estao aí, aqui conosco, distribuindo carinho, amor, pensamentos, suas lembrancas. os livros, o traco de Modigliani (sabia que Streisand, na sua juventude, era comparada a um retrato dele?), a vontade de falar abertamente sobre Freud, a analista e a depressao... Amiga, voce é uma pessoa MUITO MUITO rica! beijos de "Colonia" (estou aqui a trabalho) Ricardo

Anderson disse...

Incrível como consegue fazer a gente entrar nessas cenas...
Bjos, boa semana pra vc...

Tertúlias... disse...

Minha flor, voltei para reler tudo... "tintin por tintin". Cada vez mais te admiro!