quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Vai comer ou quer que embrulhe?


Acordou cedo com uma terrível dor. O estômago embrulhado, uma vontade inadiável de ficar na cama. Tomou um café preto, vestiu-se com o vestidinho-de-ir-à-rua, de malha, cinza, básico, só para esconder as vergonhas de forma neutra. Rasteirinha chic, para compor o look e não aparentar desleixo. Na padaria serviu-se de pão, cinco, seis, sete, oito, colocou no pacote foi até o caixa, pagou e recebeu os pães numa sacola plástica. Passou na banca comprou o jornal, que veio numa sacola plástica.
- Já houve um tempo (pensou) que o Jornal, depois de lido de fio a pavio, servia como "sacola plástica" embalando folhas e flores na feira e embrulhando o lixo além de mil e uma outras utilidades.
Passa na farmácia, compra um anti-ácido que lhe é entregue numa sacola plástica.
De volta a casa, pega as duas últimas torradas e joga fora o saco. Desembrulha duas fatias de queijo(que mais parecem plástico!) e coloca em cima das respectivas torradas.
Ao arrumar a casa retira o lixo das seis, repito, seis latas de lixo que estão forradas por seis sacolas plásticas. Casa arrumada, vai se recuperar no salão de beleza.
- pé e mão?
- sim.
-um minutinho por favor.
anuncia no microfone do salão moderno:
-Cíntia, Sra Miranda a aguarda na recepção.
-Cíntia, a manicura, pega o kit descartável e indica a cadeira.
-Redonda ou quadrada?
-Quadrada.
Quando termina de lixar as unhas da mão, coloca as mãos da freguesa numa luva de plástico descartável que contem um amaciante de cutículas.
Faz o mesmo com os pés. Fazendo as contas: uma luva para cada mão e uma para cada pé!
-A sra deseja uma água, um café, um mate?
O mate vem num daqueles copos long drink e na mesma bandeja vem um canudo embrulhado num saquinho plástico, repito, um canudo, num saquinho. E um guardanapo embrulhado num saquinho, desta vez não vou repetir que vai ficar chato!
Vai ao supermercado, enche seis pares de sacolas plásticas com o cardápio para dois dias.
De volta em casa, prepara o almoço com o que comprou, abrindo umas três ou quatro embalagens (com o perdão da má palavra) plásticas.
A noite sai para jantar com o marido e, inocente janta sem pensar nas malditas embalag...
Na hora do amor vocês já sabem sexo seguro.

Se você se interessa pelo assunto clic aqui. Lá você vai encontrar ótimos videos sobre o assunto.
Peguei a foto da sandália que ilustra o texto na internet. A sandália é toda feita de sacolas plásticas.
Se você diminuir o uso das sacolinhas, prometo não falar mais no assunto!

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Uma angolana, uma congolesa e ...

Rogério havia nos pedido que levássemos a sala de aula algum acontecimento recente que nos tivesse chamado a atenção. Logo me animei, nessa mesma aula, contei a história do peixe que caiu do céu aqui em casa faz um mês. Depois fiquei pensando o que poderia ser mais inédito do que ver um vulto seguido de um ploft, antes do sol nascer totalmente, e ao verificar o que era, encontrar um peixe estatelado no terraço do décimo primeiro andar de um prédio que fica no centro de um terreno e que não tem nada acima no raio de uns muitos quilômetros.

Era uma quinta-feira santa, feriado escolar, estava com tempo e pude ir ao salão retocar os cabelos já entregue às malditas cãs. Não fui de carro, ainda estava traumatizada pela multa que recebi na antevéspera, por estacionamento irregular, justo em Ipanema, meu destino.

Pedi logo ao motorista que fosse pela Tonelero, subisse o corte de Cantagalo e entrasse para Ipanema pela Rua Garcia D’ávila. O motorista só me interrompeu para perguntar se naquele trecho poderia ir pela Barata Ribeiro, pois a Tonelero estava parada. Consenti e me entreguei à leitura de um livro.

Fiquei umas quatro horas no salão, matei minha sede de ler e não pretendia ler no táxi de volta.

Peguei o táxi na Aníbal de Mendonça e pedi ao motorista que me levasse à rua General Severiano.

- A senhora sugere algum caminho?

- Ah! Sim, vamos pela Epitácio Pessoa, por favor.

Assim que subimos o viaduto Plácido de Castro o trânsito estava todo parado.

Pensei alto: Nossa está tudo engarrafado.

- É só um pouquinho senhora, daqui a pouco anda.

Olhei para o lado vi a subida do corte e me consolando disse.

- Não ia adiantar ir por outro caminho, veja: o corte também está todo parado.

- A senhora está com algum compromisso?

- Não senhor, mesmo porque, se tenho hora para chegar saio com bastante antecedência para ter certeza de chegar na hora marcada sem estresse.

- Eu também senhora detesto atrasos, já a juventude não sabe o que é chegar na hora marcada, é comum chegarem quinze minutos depois do combinado.

Não concordei, não gosto de falar mal da juventude e nem gosto de generalizar.

Lembrando-me da minha irmã disse:

- Conheço pessoas que saem de casa na hora em que marcaram para chegar.

Ele sorriu e disse:

Assim não dá, não chegarão nunca.

É verdade, concordei.

De primeira, e segunda, ainda passávamos em frente aos prédios conhecidos como residências Villa-Lobos.

Lembrando-me do sufoco que havia passado no dia anterior para poder honrar vários compromissos estiquei um pouquinho mais a conversa.

- Contratei uma pessoa para trabalhar em minha casa na segunda-feira e ontem ela faltou.

- Quando eu trabalhava nunca faltei ao serviço.

A senhora não trabalha? indagou curioso o pracista.

Não senhor, não trabalho. Larguei quando as crianças nasceram.

Com uma certa urgência, foi logo dizendo:

- Olha. Vou dizer uma coisa para a senhora: Eu tenho uma prima que foi casada 26 anos. Acho que o marido fez de propósito, completou entre parênteses, um dia desses ela por acaso mexeu na carteira dele e encontrou o retrato de um menino junto com o retrato das filhas e não foi difícil ela concluir que o menino era filho dele.

Ainda pela curva do calombo fiquei sabendo dos pormenores. Antes de “esquecer” o retrato do bastardinho ele fez o favor de convencer, a santinha a qual ele proibiu de trabalhar, a deixar os 150 mil que recebera de herança da mãe, para que ele tomasse conta. O resto vocês já sabem ou imaginam. É uma história como tantas outras.

Antes de chegarmos ao Botafogo, não à sede da General Severiano, na lagoa ainda no clube de remo, Eu disse que podia perceber um mau-caráter nos mínimos atos.

Ele achava que não, que podemos ser enganados, por acharmos que aquilo nunca aconteceria com a gente.

E é por isso que eu nunca casei. Vivo com uma mulher há 30 anos, mas casar de jeito nenhum.

- A senhora sabe: eu não sou daqui, sou de Portugal.

- Ah! E da onde o sr é?

Respondeu de passagem - De Coimbra,

- Eu já fui a Coimbra. Imaginava que a conversa seguiria este rumo, Coimbra, a universidade, os estudantes de preto, as iguarias...

- Quando eu morava em Coimbra, numa cidadezinha nos arredores, a mulher de um amigo meu...

Eu curiosa para saber que cidadezinha.

Ele querendo contar a decepção do amigo.

- Um amigo meu morava perto de uma igreja e o padre teve um caso com a mulher dele.

- E isso não é tudo, foi logo completando, o padre, muito esperto, espalhou pela vizinhança que precisava de alguém que limpasse a Igreja e cuidasse dos aposentos dele.

A mulher disse ao marido que ela poderia fazer este serviço, afinal de contas seria um dinheirinho extra no apertado orçamento do casal.

Não satisfeito em ficar com a mulher do amigo, os dois ainda fugiram e ninguém nunca mais ouviu falar neles.

Nesta altura chegamos à fonte da saudade.

É tem mau-caráter em tudo quanto é profissão. Padre, Padeiro, Pedreiro...

- Eu já fui padeiro, tive duas padarias e não sou mau-caráter.

- Eu não quis dizer isto, quis dizer que mau caratismo é da pessoa e não da profissão.

Mas, ele queria dizer que também teve um restaurante no jardim botânico, que tinha treze empregados que o vendeu depois que a globo foi pro projac...

Tendo passado pela Real Grandeza, já quase no cemitério São João Baptista ele me contou que morou na áfrica, que tinha servido ao exército.

- Angola?

- Sim, Angola.

- E o que o sr fazia?

(com muita simplicidade) – Matava

- Matava, simples assim?

- Se eu não matasse, eu morria. Na guerra não temos escolha estamos lá para matar.

Fui ficando aflita, já estava na bifurcação entre a General Polidoro e a Arnaldo Quintela.

O sinal fechou.

Ele arregaçou as mangas e mostrou uns dez ou doze pontinhos tatuados no braço esquerdo.

- O sr matou todos esses?

- Matei.

Se não matasse, morria repetiu.

- Uma vez o capitão queria que eu matasse três enfermeiras que havíamos capturado. Uma angolana, uma congolesa e a outra não me lembro.

- Achei que era covardia, que elas não representavam ameaça e disse que não mataria. O capitão insistiu, disse que era uma ordem.

- Eu tinha que cumprir ordens, mas ainda tentei argumentar, se o sr acha que elas devem morrer, mate o sr mesmo.

- O capitão lembrou-me que quem mandava era ele. E eu disse: - Esta bem vamos deixá-las tomar banho e depois disso matamos. Fiz isso para elas poderem fugir.

Não deu outra, elas fugiram e foram engolidas pelos crocodilos.

Ah! Não assim esta história está ficando um tanto fantástica.

A senhora não sabe que na África tem crocodilos enormes. A senhora não acredita.

Lembrando-me das cobras que engolem um boi inteirinho, apressei-me em dizer que acreditava sim.

- O sr pegue a esquerda, por favor, pois já estamos quase chegando.

Colocou a seta, pegou a esquerda e eu pedi que parasse logo ali depois daquele poste.

Ele parou um pouco mais a frente num recuo.

- O senhor tem é coisa para contar!

- É sim, até uma escritora disse que queria escrever um livro, mas eu não contei tudo para ela.

Já estacionado, olhou para trás e disse:

- Mas para a senhora eu vou contar.

Ficamos sabendo da covardia que um grupo de cinco homens havia feito com uma família. Estupraram, mataram, e pegaram até uma mulher grávida de oito meses, abriram a barriga dela ao meio, retiraram o bebê e cortaram ao meio.

Nós fomos no rastro deles e um.... espécie de capitão do mato encontrou-os.

Eles estavam assando um veado.

A senhora sabe como nós matamos???

- Já descrente deste mundo, eu respondi: colocaram para assar como o veado.

- Não senhora, pegamos um bambu grande que havia por lá afiamos bem, fincamos os cinco e deixamos lá para os urubus comerem.

Peguei o dinheiro, paguei a corrida, eu precisava ir...

Ele ainda mostrou-me uma das seqüelas da guerrilha.

Esticou o braço direito, disse que era uma pessoa calma.

Eu disse, suas mãos tremem...

Ele disse de tanta granada.

Não querendo ir disse, eu tenho fotos poderia mostrá-las para provar...

Eu com uma vontade danada de combinar para ver as fotos, disse apenas tchau uma Boa Páscoa.


sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Ter um blog é legal!

Ando com uma tosse danada. Ou melhor, tento dormir e uma tosse me ataca. Então ao invés de lutar, venho até pampa-linda ver o que os amigos estão fazendo. Aqui é a minha Pasárgada e eu não sou amiga do Rei, sou o próprio.
Visito um amigo que foi a Londres e viu Chicago pela primeira vez. Por sua vez meu amigo visitou um amigo.
No twitter conheço Fabrício Carpinejar, leio ótimas frases. Curiosa invado o blog dele e a minha tosse é bem vinda e se justifica.
Vou ilustrar de novo com Leminski.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Palavras insólitas

Esta é mais uma tarefa da gincana da qual eu participo. Link ai ao lado.
1ª TAREFA - Vá até o blog "inscrito", imediatamente, antes do seu e:

a) Leia as três últimas postagens.

b) Escolha uma delas para responder às perguntas:

1) Por que escolheu essa?

2) O tema é de seu agrado. Por que?

3) Já frequentava esse blog? Caso negativo, qual foi sua impressão?

4) Escolha uma imagem, destas postagens, para ilustrar sua resposta/tarefa.

5) Faça uma descrição do blog visitado. Comente todos os aspectos que te chamaram ( negativa ou positivamente) a atenção.

6) Coloque como título, de sua postagem/tarefa, o nome do blog visitado.

Marina Sena é a dona do Blog palavras insólitas.
No seu perfil ela diz que tem só 17 aninhos. Marina escreve pequenos contos muito interessantes e criativos. Não coloca muitas fotos. Usa diferentes fontes como se quisesse mostrar seu humor graficamente. Eu gostei mesmo dos contos de Marina e coloco aqui o que escolhi para cumprir a tarefa.

.o.homem.de.retalhos.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009 às 07:58
*Créditos da imagem

Era todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, outros com um rascunho de qualquer coisa que tenha passado. Retalhos feitos de papel, todos espalhados pelo chão. Diziam que era tudo muito desarrumado- suas paredes, seu quarto, sua sala - mas a verdade era que, e isso era um segredo, ele gostava assim. As folhas se perdiam e misturavam umas às outras, sem que ele nunca pudesse arrumá-las completamente, pô-las em ordem.
Um dia, ele desejou, muito e muito, que pudesse ser como os homens organizados. Sempre muito bonitos, de cabelo penteado, com um gravata talvez; mas principalmente com aquela organização que não deixa papéis espalhados por todo lugar. É que às vezes se perdia entre seus retalhos. Não que isso fosse exatamente ruim, mas apenas ele poderia viver em lugares assim. Ninguém mais poderia lhe entender a organização. Vivia sozinho, em meio aos seus papéis. Até que, certa vez, encontrou uma menina. Ela tinha uns olhos escuros muito bonitos, gostava comer marshmallows e tinha cheiro de margaridas no verão. Gostava de sair para andar em dias de sol e também de levá-lo com ela. Ele parou de viver só em meio aos seus papéis amassados. Passou a ter uns retalhos coloridos, que nunca tivera antes. As pessoas passavam do outro lado da rua e diziam como formavam um belo casal, desses que vivem a andar pelas flores.

Ela pintou as paredes, forrou o chão com tapetes e sorrisos, trocou as cortinas. Trouxe uns livros para pôr na estante e umas caixas para guardar os papéis.Você não pode viver para sempre assim, ela dizia, todo afogado em retalhos, sem nunca poder respirar. Mas ele, todo acostumado com seus rascunhos, não queria deixá-los ir tão distante. Ela chorou quando ele a fez parar de pintar as paredes. Quando deu-lhe de volta os livros da estante e jogou fora as caixas para guardar os papéis. Ele se desfez dos papéis coloridos, dos sorrisos espalhados pelo corredor e das caminhadas em dias de sol. As pessoas passavam do outro lado da rua e diziam como ele era todo feito de rascunhos amassados. Ela não quis mais - nunca mais - comer marshmallows. Seus olhos escuros não eram, agora, tão brilhantes, e não tinha mais o cheiro de margaridas no verão. Isso ele nunca poderia notar, pois tanto se perdeu no seu mundo de rascunhos amassados, histórias em branco e linhas despedaçadas que nunca conseguiria viver com ela, entre as flores.

Era todo feito de retalhos. Uns bonitos, outros feios, mas todos dele e - sim, agora ele sabia - nunca feitos para dias de verão.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

A Rainha do Engenho





O diabo, de tanto tentar se enfeitar,
acabou ficando com a cara torta.

- Pode deixar que eu compro as flores!
Beijou o neto que dormia em sua cama e saiu para o trabalho.
Eram 5:50. Graças a estação Engenho da Rainha, podia se dar ao luxo de sair de casa às seis e caminhar com calma até o metrô.
Estava especialmente cansada naquele segundo sábado de maio, desanimada até. As varizes doíam, mas o senso de responsabilidade não desanimava. Nunca.
Moradora antiga do Engenho Da Rainha, Ceci era muito conhecida e respeitada no bairro. A mãe, morena bonita, descendente dos Tamoios, tinha sido amante de um músico, morador de famoso conjunto habitacional da região. O Pai: desconhecido.
Geralmente, saltava na estação Cantagalo, mas hoje resolveu pegar o ônibus que faz a integração até Ipanema. Assim, não caminharia tanto.
Às 7:30 vestia uniforme de doméstica, passado e engomado, com capricho, por ela mesma.
Começou pela sobremesa: pavê de nozes. Depois, enquanto o lagarto cozinhava, descascou as batatas, lavou as folhas, fez o arroz. Colocou a louça que ia ser usada na lavadoura, separou os talheres. Fez um chazinho para dona Tereza (a patroa) que estava indisposta.
Ao meio-dia estava pronta para voltar para casa e começar o tradicional almoço de dia das mães. O cardápio era quase igual. O pavê não teria nozes, e ao invés de folhas preferia um guizado.
Antes de sair, a patroa ainda pediu que acendesse uma vela na Igreja de Nossa Senhora da Paz. Era uma promessa que Dona Tereza não queria quebrar, mas indisposta como estava, teve que recorrer à amiga.
Ceci não gostava de passar nesta Igreja. Foi lá que morreu o mais ilustre vizinho, morador do Conjunto Habitacional dos Músicos: Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha. Mas, não seria de todo ruim, aproveitaria para rezar pelo seu filho caçula, Nelsinho, menino fraco, que não conseguia largar o vício.
Pegou o metrô de volta.
Adorava o nome do seu bairro. Sabia um pouquinho da história também. Engenho era a fazenda de cana-de-açúcar onde Dona Carlota Joaquina, a rainha, ia descansar. Pensava divertida.
Passou numa feirinha, comprou um par de chinelos para dona Bira, solteirona, velha amiga da família, e que com certeza, coitadinha, não ganharia nada no dia das mães!
No sacolão, comprou os legumes para o guizado, encontrou Dirce, sua manicura, e confirmou a hora.
Sábado por volta das cinco era a hora do descanso de Ceci. Dirce ia para lá e entre esmaltes, lixas e alicates as duas bebiam uma Malzebier bem geladinha, falavam da vida, delas e da dos outros, é claro.
Não teve coragem de recusar o pedido da amiga. Dirce queria fazer bonito, causar inveja às cunhadas, e levar uns rissoles para a festa do dia das mães na casa da sogra.
Terminou de fritar os rissoles lá pelas 10 e despediu-se de Dirce.
Tomou banho, trocou a fralda do netinho e já deitada ouviu as reclamações do marido.
Há muito que ele não dava nem bom dia, nem boa noite. Falava de suas dores da hora que acordava, até a hora de dormir. Não se calava nem dormindo, roncava até quase sufocar a noite toda.
Só faltavam as flores, pensou.
Acordou na hora de sempre, pensou em não comprar as flores, estava cansada demais e afinal as flores eram para ela mesma.
O telefone tocou. Cíntia, a filha mais velha, deixaria as crianças lá. O marido tinha saído para beber, ainda não voltara e ela iría atrás daquele cachorro.
Nelsinho ainda não tinha chegado. O marido acordou e agora tinha mais motivos para reclamar: As crianças de Cíntia corriam aos berros pela casa enquanto a babá (a televisão) se esgoelava em vão.
Serviu o café para o marido, que desta vez reclamou estar fraco.
Pegou o dinheiro das flores.
Quando saía, entraram Cíntia com o marido cachorro e Nelsinho, bêbado como um gambá. Dona Bira, a solteirona, não viria, estava constipada.
Fechou o portão.
Foi encontrada dias depois, sentada numa pracinha, embaixo de um pé de abiu, agarrada a um vaso de orquídeas. A tudo o que lhe perguntavam, respondia com o olhar perdido:
-Sim!

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Ei você aí, me dá um dinheiro aí ,me dá um dinheiro aí.


Aqui pertinho de casa, tem um mendigo que nunca pediu dinheiro. Mendigo ou morador de rua? Existe uma definição? Não sei de nada, como já disse, mas desconfio muito. O mendigo, digo o morador de rua, mora aqui na rua desde que eu vim morar aqui, há 15 anos. Ou ele já morava antes? Eu o chamo, de Tatuagem.

Alto, magro, sempre de bermudas, nunca o vi usando camisa. Anda quase sempre descalço. Uma vez ou outra usa uma daquelas democráticas sandálias que não deveriam soltar as tiras. Tatuagem está sempre com um sorriso no rosto que, não pude deixar de notar, ao longo destes anos mudou muito. Quase não há mais dentes em seu sorriso.

Tatuagem me ajuda. Sempre que eu tive que atravessar minhas filhas, quando pequeninas, ele verificava se os carros tinham parado mesmo no sinal. Se eu preciso passar num lugar aqui pertinho, e que eu sei que é perigoso, pergunto. - Tatuagem posso ir? - tá liberado, pode ir. Responde, e nos segue com o olhar para ver se nem um pivete vai bulir comigo ou com as meninas.

Tatuagem nunca me pediu nada. Nosso relacionamento é de vizinhos: - Oi tudo bem?
- tchau. - Nossa que chuva a de ontem, hein? Vejo que ele gosta de conversar. Está sempre trocando um dedo de prosa com o guardador de carros e com o segurança aqui da rua. Tatuagem não assiste televisão. Sorte a dele. Assim não precisa assistir a total mendicância que virou a televisão brasileira.

Já pela manhã bem cedinho, acrditando talvez que deus ajuda a quem cedo madruga começam os pastores a pedir. Ultimamente ando obcecada por um pastor americano que pede nada menos que NOVECENTOS reais. O pastor é um velhinho de cabelos escandalosamente pintados de preto, com um rosto de biscoito "Trakinas". Será que alguém deposita os, repito, NOVECENTOS reais na conta do pastor traquinas?
Seguindo os pastores, seus pedidos e seus sermões, começam os jornais locais com pedidos de dinheiro e tudo o mais para as tragédias locais.
Os programas femininos tem um jeitinho todo especial de pedir o tutu, entre uma receita e outra, lá vai o número da conta.
A tarde a programação infantil pede descaradamente para que a criança enlouqueça seus pais pedindo para que les comprem " de um tudo" sem limites.
A noite os jornais "nacionais" pedem dinheiro para tragédias mundiais. Tsunamis, tufões e furacões.
Nos fins de semana, que a tv brasileira descansa e nos brinda com uma programação lamentável, vêm os shows, para pedidos de dinheiro. Pestalozzi, criança esperança, teleton etc e tal e infinito e além.
Isto sem contar com os pedidos do governo, que para poder manter a pobreza (seu eleitorado) aumenta os impostos, cria novos impostos e não repasssa nada.

Não reli, não corrigi, aceito sugestões.

sábado, 10 de outubro de 2009

Gentilezas e delicadezas


Gosto muito dos meus poucos leitores. Less is really more. São sempre delicados nos comentários, mesmo que não tenham tempo, não entendam ou não concordem. Meus leitores, são antes de tudo pessoas educadas e sensíveis. Porque estou dizendo isto?
Porque andei refletindo, a partir de duas, aparentemente pequenas, coisas que me aconteceram esta semana.

Precisei fazer um jejum de 12 horas para um exame de perfil lipídico. Já prevendo o resultado e todas as proibições que se sucederiam, assim que os médicos vissem o que minha barriga já deixa transparecer há tempos, fui me despedir da vida boa. De agora em diante vou ter que levar a vida saudável.

Tem gente que não gosta de despedidas, eu gosto. Mas tem que ser em grande estilo. E por isso resolvi terminar meu jejum com um nada mais, nada menos que um croissant. Era uma quinta-feira de manhãzinha, eu não tinha pressa para nada e fui ao café que eu gosto aqui mesmo em botafogo.

Quando entrei no café, saía uma conhecida minha. No local que é bem pequeno, não havia freguês. Qual carioca come croissant no café da manhã? Os que comem, o fazem escondido, se bem que a barriga acaba delatando os inocentes.

A atendente do café juntava umas mesas para o que parecia ser uma comemoração; a minha conhecida retornou com umas amigas e de costas para mim disse à atendente que separasse as mesas que ela não se sentaria ali. Foi sentar-se com mais três amigas do outro lado, deixando patente que não queria que eu estivesse por perto. Eu tomei meu suco de laranjas, comi meu croissant com queijo minas, querendo desaparecer. Achei uma indelicadeza, e até mesmo um pouco assintosa a atitude da conhecida. Tenho certeza que se ela fosse um pouquinho mais bem educada, não deixaria que eu me sentisse tão mal por estar ali.

No dia anterior tinha sido o aniversário de uma sobrinha do marido. Ele tinha me pedido que o esperasse chegar do trabalho para darmos os parabéns. O marido chegou tarde e eu já estava com tanto sono que esqueci de ligar. Nesta mesma quinta-feira, não querendo que o aniversário da sobrinha passasse em branco e sabendo da preocupação do tio em demonstrar afeto a sobrinha, mesmo que anualmente, resolvi ligar. Disse as coisas de praxe,com é de praxe, dizer bom dia, ou boa noite, ou obrigada.

Disse a menina ( que devia estar completando umas quarenta primaveras) que o tio estava no trabalho e que eu não sei se chegaria a tempo de falar com ela. Ao que ela respondeu: - Não precisa, já está falado.

Tenho certeza que nos dois casos as pessoas não tiveram intenção nenhuma de serem indelicadas, mas o dr. Freud não está tão certo assim.Também tenho certeza que se elas tivessem um pouquinho mais de educação teriam sido bem mais gentis.

Sábado de muita chuva, na cidade sede dos jogos olímpicos de 2016. Isto se sobrevivermos até lá. Aqui no Rio não é preciso nenhum tsunami para que a água provoque verdadeiras tragédias na vida do carioca.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Rapidinhas




Ando meio sem tempo, então para não abandonar totalmente meu blog, vou publicar aqui as crônicas que escrevo para a oficina nova que eu estou fazendo.
Fazem amis ou menos 30 dias que eu mandei a empregada embora. Achei que minha vida ia virar um caos, com duas meninas adolescentes e indolentes e um marido, que estando em casa, me chama 25 hours a day. Mas estava enganada. Tenho conseguido dar conta do recado. E sou muito feliz por não ter que mandar ninguém fazer nada, e nem responder a recorrente e irritante perguntinha: Dona Márcia o que a sra vai querer que faça para o almoço. Sinceramente, prefiro fazer eu mesma o almoço do que dizer o que tem que ser feito. Se os países mais desenvolvido do planeta passam muito bem sem empregada doméstica acho muita arrogância de nós brasileiros não podermos nem arrumar a própria cama na qual nso deitamos. Depois escrevo mais sobre isso. segue minha crônica, o professor tinha andado escrever uma crônica com o tìtulo O que é crônica.
Depois conto como é o professor e como são os alunos deste novo curso.

Uma crônica?


“Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa”.

Riobaldo em Grande Sertão Veredas (Guimarães Rosa)

No século passado, lá pelo final dos exagerados, anos 80, prestei o vestibular. Desde então, nunca me esqueci do texto que servia como mote para a prova de redação. Era uma historinha, aparentemente um tanto singela, sobre um burro que estava morrendo de fome e de sede e colocaram na frente dele, um monte de feno e um balde com água. Incapaz de escolher, entre matar primeiro a fome ou a sede, o burro morreu.


Nesta época, não tinha a menor noção do que vinha a ser uma escolha com tamanha profundidade. Jovem demais achava que escolher era uma coisa bastante simples.. Medicina ou Direito, azul ou verde, Fla ou Flu (Flu), chocolate ou creme. O tempo me encarregou de fazer escolhas bem mais difíceis e complexas. E, atualmente, todas as vezes que me deparo com um problema de escolha, penso no falecido burrico.


Precisando escrever uma crônica, sobre o que afinal de contas é crônica, instantaneamente me veio à mente a recorrente imagem do quadrúpede, de orelhas enormes, defronte do feno e da água. O que escrever? Quais palavras usar? Quantos parágrafos? Quantos toques? Colocar ou não uma epígrafe? Não querendo morrer de fome, ou de sede, na verdade não querendo nem morrer, resolvi recorrer ao pai dos burros. Imaginei que partindo de uma definição precisa sobre o que é crônica seria fácil. A preguiça, no entanto, me fez cortar caminho. Recorri então ao “tio google” mesmo, e teclei: Cê, érre, ó, ene, i, cê, a


E, em menos de quinze segundos, estavam à minha inteira disposição 22.600.000 verbetes que continham a palavra crônica. Uni, duni, tê, fechei os olhos e cliquei aleatoriamente. Oba! era meu dia de sorte! O verbete que meu rato escolheu, graças à deus, não falava sobre nenhuma doença crônica ou qualquer outra coisa, desagradável, do gênero. Era um verbete da Wikipédia.


Já na primeira linha fiquei pasmo. Descobri que existem duas grafias para a palavra crônica: A européia com um acento agudo no ó e a brasileira com um simpático chapeuzinho no ô. Fiquei pasmo e revoltado. E a reforma ortográfica? E a unificação? O parágrafo seguinte ia ser todinho para falar mal e reclamar da reforma ortográfica, mas não vai dar. Preciso escolher uma definição, que sirva de mote para minha crônica e, se eu sair falando da reforma não vai sobrar espaço. Lá vem o burro de novo.


Estava redondamente enganado, minha escolha não ia ser tão fácil assim. Quanto mais eu me aprofundava no assunto, mais o leque de opções aumentava. Apesar de faltarem alguns tipos de crônica, o verbete fazia uma lista de mais ou menos uns 10 tipos e explicações e coisa e tal.

Indeciso, com preguiça e com a faca no pescoço não escolhi nem água nem feno, fiquei mesmo com a definição do Cony (um mestre no gênero): “Crônica pode ser qualquer coisa, só não pode ser chata!”



domingo, 4 de outubro de 2009

cronica

Comecei na quinta -feira, nova oficina da crônica (isto já esta se tornando crônico-não resiti ao infame trocadilho-mil perdões)

Hoje é domingo, pé de cachimbo etc e tal, não esta sol.

Detesto gente com car blasé, mas aceito explicações.

Outro dia fui fazer uma ultrassonografia do abdomem, pois sentia dores na barriga.
Quando adentrei aquela salinha, escurinha e geladinha, me lembrei de quão esquisitos são os profissionais que fazem este tipo de exame. Todos sem exceção tem um ar blasé.

A médica que me atendeu tinha o cabelo chapinha, masgava chicletes e tinha o indefectível ar blasé.
Repira fundo,solta,respira,solta,respira,solta cut and paste ,etc e tal. Não fazia nenhuma expressão além do ar blasé. Não olhou hora nenhuma a minha cara, não sorriu.

Doutora Pilar era o nome da esquisita.

No final do exame que a máquina fez, cai na besteira de perguntar se estava tudo bem. Ao que o clone de ser humano, ruminante respondeu: - Tem gordura no fígado.
E o que isto quer dizer? perguntei humildimente, ainda insistindo em ser simpática.
- Quer dizer o que foi dito: gordura no fígado.
Apesar de estar na posição desfaforável, deitada e com a barriga toda melecada, ousei perguntar mais uma vez.
-E isso é grave?
-Depende de uma série de coisas.
-Passou um papel na minha barriga e saiu ruminando.