terça-feira, 15 de dezembro de 2009

Hoje vou de Roxo!


Não entendo esta verdadeira histeria pela ceia de natal e afins. Os supermercados ficam lotados de gente comprando os mesmos produtos, para fazer a mesma farofada.
Eu como bem o ano todo. Na ceia de natal só é mais especial, porque estou com minha família, porque ceiamos envolvidos pelo espírito de Natal. Meus pais cozinham muito bem e minha mãe arruma a mesa com muito bom gosto. Conversamos, bebemos, comemos, brigamos, vibramos, brindamos. O cardápio nunca é o mesmo. Mas o sabor da ceia se supera a cada ano.
Na verdade nem sempre é ceia. Mamãe não faz o tipo galinha! Ela nos deixa livres para escolhermos onde queremos ceiar ou almoçar (já que todo mundo agora tem uma outra família). Este ano combinamos de fazer um almoço bem tarde no dia 25. Às vezes fazemos um brunch.
Quando sento para escrever sempre acho que vou dominar as idéias, queria continuar escrevendo sobre o azul, mas vi que não ia dar tempo. Então vou colocar o texto que eu fiz sobre a páscoa que é roxo e depois volto para o azul. Lembrei-me do texto devido a histéria das compras, bacalhau, pão para rabanada e panetone, peru, tender, nozes....


A Paixão é roxa e tem cheiro de lírio

Depois de uma certa idade, parece que o tempo voa.

O comércio então me deixa apavorada, com o calendário composto apenas de: natal, carnaval, páscoa, dia das mães, namorados, pais, crianças, seguidinho assim e de novo natal cada vez mais em novembro.

Nada me aflige mais do que quando termina o carnaval: já na quinta-feira as lojas especializadas estão repletas de verdadeiras plantações de ovos de páscoa.

Deus, que, como se sabe é Brasileiro, também se encarrega de nos preparar. Ao longo dos dias que separam o carnaval da páscoa vai salpicando na densa mata o roxo da sua Paixão. Quero dizer: nesta época as quaresmeiras ficam repletas de flores roxas, cor que para a Igreja Católica, simboliza a Paixão de Cristo.

Nesta sexta-feira-da-paixão, colocamos as malas no carro e saímos cedinho para passar a Páscoa no sítio.

No caminho, que é lindo, vou pensando no que tenho que escrever.

Vou lembrando das páscoas passadas e dos entes queridos.

- Hoje é dia de jejum com abstinência, advertia-nos, animado, meu sogro, já pensando na comilança que se prepara com muito bacalhau, azeite, batatas e natas. A carne não vale , é dia de bacalhau, uma paixão nacional e uma tradição importada.

Já quase em Pampa-Linda (o sítio); noto que o caminho também está cheio de lírios do brejo e mal posso esperar, para sentir o agradável aroma que esta época, de passagem para o inverno, tem.

Volto às lembranças. Sem esquecer o texto.

Meu pai detesta bacalhau e fica irritado, roxo de raiva, quando sabe que o menu é o maldito peixe demolhado e dessalgado. Repete com desdém que bacalhau não é peixe e sim uma maneira encontrada para conservar sem ter que refrigerar.

Mamãe, que sempre respeitou as vontades dele, nunca serviu um bolinho sequer. E agora que sou eu quem “faço” a páscoa, por tradição, mantenho o jejum com abstinência de carne e de bacalhau.

A cada curva mais quaresmeiras roxas e matas verdes e lírios.

Continuo me lembrando dos queridos e...

Já que citei meu sogro, não vou deixar minha sogra de fora, é mesmo prudente, não quero lhe causar ciúmes.

Naquele ano foram passar a Páscoa em casa de gente muito fina e elegante. Sempre preocupada com a educação dos filhos, Dona Cora preveniu-os:

- Cumprimentem a todos. Ao aceitar algo digam: -sim, obrigado; se, por acaso não quiserem: - não obrigado. Cuidava para não esquecer algo que pudesse comprometer o orgulho de mãe zelosa.

Carlinhos, o filho caçula, ouviu com toda atenção a preleção, era a primeira vez que saía sem as humilhantes calças curtas e não queria fazer feio. Cumprimentou a todos com simpatia, aceitou um copo de refresco, que bebeu com muito cuidado para que nada saísse errado. Foi quando lhe ofereceram bacalhau que o aplicado rapazote improvisou, com toda a polidez:

- Não obrigado! Não suporto nem o fedor!

Dona Cora, é claro, ficou roxa de vergonha.

Desde então, sempre que aqui em casa não gostamos de algo vamos logo dizendo: - não, obrigado! Não suporto nem o fedor! (seguido de uma boa gargalhada).

Duas horas depois, chegamos a Pampa-Linda.

Rex nos esperava como quem espera os ovos da Páscoa.

E, que delícia: quando salto do carro sinto o perfume dos lírios, que são minha paixão.


4 comentários:

Chica disse...

Ficou muito legal essa mistura de textos.Cabem bem um nooutro.,beijos, lindo dia e tudo de bom,chica

Tertúlias... disse...

Lindos, lindos... sento o perfume dos lírios...

Tertúlias... disse...

quiz dizer "sinto"

Jôka P. disse...

Oi, querida Marcia!
Saudades de vc, um gd bj!
Tudo de bom! JÔKA