terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Penúltima crônica da Oficina de Quinta!


O dever de casa desta vez era revelar o porque da escolha do pseudônimo.


Somos feitos do mesmo que nossos sonhos

“We are such stuff as dreams are made on”

(A Tempestade Shakespeare)

Em casa éramos quatro filhos. Ou melhor, somos: duas meninas e dois meninos, com idades muito próximas. Uma verdadeira escadinha como se diz. Brincamos juntos a maior parte do tempo. Mas nem eu, nem minha irmã gostávamos de futebol. Os meninos faziam questão de contar cada lance dos jogos que assistiam ou das peladas que participavam. Parecia até implicância. Nós duas detestávamos!

-Rodrigo, você achou que eu estava impedido no lance do gol?

-De onde estava não deu para ter certeza, acho que não, mas o juiz tinha outro ângulo de visão.

-E aquele carrinho que o Nelsinho deu no Bira, foi até covardia você não achou? O moleque teve que ser substituído.

-Bonito mesmo foi o gol de placa do Pepe, ele é mesmo um craque!

Cansadas de ouvir resenha esportiva sem nem precisar ligar o rádio, eu e minha irmã resolvemos pregar uma peça nos meninos. Assistimos a um amistoso (acho que era Brasil e Bolívia) e anotamos cada lance do jogo. Os noventa minutos ficaram bem explicados, com comentários e observações dignas de um bom entendedor. Quando os meninos chegaram, eu e minha irmã comentamos o jogo do mesmo jeitinho que eles insistiam em fazer há tempos. Assim “as meninas” lá de casa passaram a entender um pouco mais de futebol E, compreender é também gostar. Não era muito difícil gostar de futebol naquela época. O Brasil era tricampeão, e, apesar da Seleção não contar mais com Pelé, e com outros nomes de ouro da campanha do tri, o time era de craques.

Gosto de palavras, gosto de nomes. Quando acho o nome de alguém sonoro, já simpatizo com a pessoa logo de cara! Os nomes do time da seleção brasileira na copa de 74 eram muito interessantes: Piazza, Rivelino, Marinho Chagas, Carpeggiani. Mas tinha um nome que eu adorava repetir, achava de uma ternura... Mirandinha. Apelido de Sebastião Miranda da Silva Filho. Conhecido por fazer muitos gols e perder outros tantos.

Não escolhi meu pseudônimo por causa do Mirandinha, lembrei-me dele agora que quero revelar o motivo do meu pseudônimo de cronista.

Enquanto escrevia lembrei de outro Miranda. Uma lembrança não! Uma vaga ideia.

Quando adolescente li um romance chamado “O cortiço” de Aluísio de Azevedo. Li todinho, mas não lembrava de nada, apenas que tinha alguém que se chamava Miranda. Procurei um resumo do livro para me certificar e lá estava o Miranda, um vizinho. Gosto de vizinhos. Quando ouço a palavra, imagino uma xícara de açúcar, um pedaço de bolo quentinho, um cheirinho de café passado na hora Será que foi por gostar de vizinhos que não me esqueci do Miranda?

Não consigo entender porque conseguimos recordar algumas coisas e outras não, coisas vividas na mesma hora e no mesmo local. De um romance inteiro, só lembrar de um nome!

Selective memory (memória seletiva) dizia um chefe americano que tive. Se bem que ele se referia a uma funcionária que só se lembrava o que a interessava. Não é assim com todos nós? Confesso que fiquei tentada a reler o livro e ver, o que minha memória será capaz de selecionar agora, passados 30 anos daquela primeira leitura.

Finalmente: escolhi Miranda por causa de uma mulher. Na verdade, quem a batizou foi um homem: Willian Shakespeare.

A primeira peça dele, que eu vi encenada, antes mesmo de Romeu e Julieta foi “A Tempestade” O ano era 1982, e o cenário não poderia ter sido mais bonito. A casa que Henrique Lage mandou construir no final do século 19 para sua amada, a cantora lírica, italiana, Gabriela Bezanzoni. E, que atualmente abriga a EAV (Escola de Artes Visuais do parque Lage). Situada aos pés do morro do Corcovado, no bairro do Jardim Botânico, Rio de Janeiro.

Em torno da piscina, no mesmo local onde a famosa Mezzo-Soprano dava as suas festas, a produção teve o bom gosto de realizar a peça. Sentávamos em banquinhos em torno da piscina. No início, em silêncio total, abria-se um toldo deixando a mostra o céu estrelado. Os atores surgiam de modo inesperado, Fernando descia do telhado agarrado a uma corda com apenas uma das mãos. Caliban, o escravo, pulava do telhado dentro da piscina. Fernando e Miranda faziam a cena de amor dentro da piscina.

Eu, que nesta época sonhava ser atriz, fiquei encantada com a peça, os atores, o cenário e com o nome Miranda.

Achei que cabia muito bem o sobrenome de industrial português, numa mulher:

Dr. Miranda está ao telefone. - A sra vai atender? Soa um tanto formal.

Já: - Miranda, ruborizada, ajeitou a saia. Soa bem mais simpático, e rima com abranda, ciranda, varanda e lavanda!

Não sonho mais ser atriz, mas ainda sonho bastante. E aprender a escrever crônicas é a realização de um de meus sonhos.

Miranda.

(amiga de: Severino Mandacaru, Roberta Bontempo, Noronha, Emanuel Vilanova,

Merrick, Lo Bianco, Aprendiz, Ícaro, os “mutantes” e aluna do Mestre Pena.)


2 comentários:

Maria Augusta disse...

Você realizou muito bem teu sonho, esta crônica está muito bonita. Por falar em futebol, só gosto (ou gostava) do futebol em época de Copa do Mundo, quando o Brasil ganhava sempre. Agora que os jogadores parecem mercenários não gosto mais. Imagine o que passei aqui na França depois daquele vexame dos 3 a 0 que o Brasil deu na Copa de 98?!
No mais teu pseudônimo cai muito bem para uma cronista e foi escolhido por boas razões.
Beijos e parabéns pela penúltima crônica!

Tertúlias... disse...

Como voce anda inspirada. Eu nao usaria a palavra "bonita" para descrever a cronica, nao, a sua cronica é mais. Ela tem "textura", osso, sangue e carne, ela é humana.
Como adoro ler os teus escritos, Márcia!!!!!!!!